Novidades para 2017

Caros leitores,
não sei se todos acessam ou já acessaram o site da Rhama (www.rhama.com.br). Convido vocês para acessarem uma seção chamada “Aprenda“, onde divulgo artigos publicados, links que possam ser interessantes fontes de conteúdo e referência na área ambiental, além um espaço para cursos e palestras. Espaço este que, em função da demanda de trabalho deste ano de 2016, não pode ser desenvolvido como gostaríamos.

A boa notícia é que estamos dando especial atenção ao desenvolvimento de cursos e eventos para o ano de 2017, com o objetivo de expandir ainda mais o “Aprenda” e construir um espaço de compartilhamento de conhecimento técnico e experiências na temática ambiental, além da possibilidade de fazer networking e ficar em contato com profissionais de diversas áreas.

Gostaria de pedir a contribuição de vocês para construção desse espaço de conhecimento para, assim, oferecermos cursos e promover eventos mais direcionados aos interesses de nosso público, vocês. Disponibilizo aqui uma breve pesquisa, que montamos para direcionar algumas questões relevantes para o desenvolvimento desse projeto. Leva aproximadamente 3 minutos para respondê-la e a participação de vocês é muito importante para nós.

Quem quiser, pode comentar aqui também como gostaria que fizéssemos os eventos e cursos, sugerir temas, tipos de eventos, etc.
Muito obrigada e espero encontrar vocês ano que vem nos nossos eventos!

Problemas de Saneamento II

As maiores dificuldades de encontrar um saneamento sustentável quanto aos aspectos, econômicos, social e ambiental dependem de uma estrutura de gestão eficiente quanto a sua regulação e gestão.
Alguns dos problemas identificados são:
• A tarifa de saneamento é cobrada para água e uma proporção da tarifa da água é cobrada para esgoto (80 ou 100%). Quando existe rede e o esgoto conectado, mesmo sem tratamento a Empresa cobra tudo que tem que cobrar de esgoto. Porque irá terminar o serviço tratando o esgoto?
Além disso, como o custo de operação dos serviços de esgoto são superiores ao da água, o valor final do esgoto pode ser inadequado, e não cobre a operação e muito menos o investimento. Visto pelo lado da companhia, aumentar o tratamento do esgoto envolve investimentos e operação para o qual não é remunerado. Isto pode levar ao desequilíbrio da empresa, dependendo de seus custos.
Associada a esta tarifa os impostos sobre saneamento são excessivos, reduzindo ainda mais a capacidade de apresentar serviços adequados;
• No Brasil da ordem de 90% dos serviços é público (empresas estaduais 80% e 10% municipais). A gestão pública no Brasil tem grande interferência política partidária, fragilizando as empresas com empreguismos, uso de recursos fora da empresa e grande variação de gestão a cada quatro anos.
• Fraqueza técnica – administrativa: Também observa-se uma apatia técnica de acomodamento e desculpas para o “não fazer”. Um empresa de saneamento necessita de estratégia de longo prazo e modernização técnica – administrativa;
• Falta de meta estratégica de longo prazo: Mesmo as empresas com menor interferência de gestão observa-se uma falta de meta de sociedade. Esta meta é a recuperação do rio e muitas vezes são construídas redes e estações tratamento e o rio continua poluído por diversas razões de gestão como: falta de ligação na rede dos efluentes das residências, porque isto tem que ser realizado pelos proprietários e estes não querem pagar mais pelo saneamento (na medida que ligam têm que pagar esgoto, além disso tem o custo da ligação). Quando são conectadas, muitas vezes não seguem padrões e a rede privada é ligada ao pluvial. Faltam mecanismos institucionais para tornar este processo eficiente.
• Reguladores de saneamento: Na última década foram instituídos várias entidades de regulação de saneamento pelo país. Estas entidades, apesar do mandato garantido por lei, possuem limitada capacidade de pressionar as empresas que possuem representatividade econômica e política maior. O patrão é o mesmo (governador ou prefeito) e o governo pode sempre fragilizar o regulador no seu orçamento anual.
• Falta de cumprimento das leis ambientais por parte das licenciadoras estaduais. O órgão de licenciamento e a empresa de saneamento são do Estado (ou Prefeitura) e o patrão maior é o mesmo, o governador. É inevitável que haverá pressão política para amenizar o licenciamento ou a cobrança de crime ambiental das cidades e das empresas concessionárias. Porque as cidades não são multadas como as empresas privadas pelos seus efluentes?
No fundo existem um acordo implícito eu não cobro, o que deveria cobrar, mas não faço o que deveria fazer. E assim, a vida continua e a poluição continua (veja as Olimpíadas no Rio).
O que fazer para mudar? Tema para o próximo artigo!

PROBLEMAS NO SANEAMENTO I

Você conhece alguma cidade em país em desenvolvimento onde os rios que cruzam a cidade não estejam contaminados? Este é um cenário que demonstra que o saneamento das cidades não atende os seus objetivos de tratar os efluentes e manter os rios limpos. Estes resultados que qualquer pessoa pode observar existem, apesar de investimentos públicos que ocorreram ao longo de décadas.
O cidadão deveria perguntar qual é o problema? Investimentos insuficientes, recursos mal aplicados, corrupção? E também pode perguntar, como mudar?
Este artigo tem a intenção de iniciar a discussão visando alterar a apatia que a sociedade organizada se encontrar de aceitar que a poluição dos rios, os impactos na saúde, qualidade de vida e eliminação dos ambientes urbanos.
Nos países desenvolvidos este processo de modificação da apatia ocorreu na década de 70 e o marco regulatório foi a lei chamada de Água Limpa que tinha como princípio que “todos os efluentes devem ser tratados com a melhor tecnologia disponível, independentemente da capacidade de diluição dos rios”. Foram utilizados recursos maciços subsidiados e a maioria destes países teve sua cobertura de tratamento de esgoto a níveis em que a poluição se reduziu de forma significativa. Depois na década de 90, vieram medidas complementares sobre o controle da drenagem urbana para reduzir este tipo de impacto e uma visão ambiental de construir com mais sustentabilidade, preservando a infiltração da água e recuperando as cidades dentro de seu perfil urbanístico.
Nos países em desenvolvimento, enquanto as cidades eram menores usou-se apenas fossas que enviam para o subsolo o tratamento do esgoto. No entanto, esta solução é para pequenas cargas (volume de esgoto). As cargas maiores vão para a rede de escoamento, chegando aos rios. Na medida em que as cidades cresciam, os rios foram aumentando a sua poluição. No início o investimento foi de entregar água segura e não tratar o esgoto, uma solução cômoda que com o passar do tempo contaminou as fontes de água próxima das cidades, gerando um ciclo de contaminação que compromete a própria água da cidade. A população passou a desconfiar do que existe na água e parte importante da população usa água mineral. A falta de água do período recente 2014 -2015, foi de água de qualidade, não de quantidade.
O Brasil ao longo das últimas décadas nunca teve uma estratégia nacional e mesmo regional para atuar sobre o assunto. Alguns países como o Chile traçaram uma estratégia de investimentos nacional para cobrir o país com uma cobertura de tratamento de esgoto e está chegando a mesma. Na Colombia, A EPM em Medellin (empresa pública municipal) planejou a cobertura de esgoto da região metropolitana de Medellin (3,2 milhões) e completou recentemente. Esta empresa que atua também em gas, telefonia e energia faturou em 2013 US $2,45 bilhões e deu de lucro cerca de US$800 milhões e retornou ao município como lucro cerca de US$ 600 milhões.
Estes exemplos mostram que existem luz no final do túnel e os principais problemas associados ao Saneamento são institucionais relacionados aos serviços, regulação e gestão (assunto para o próximo artigo).

RISCOS NA DISPONIBILIDADE HÍDRICA NO CANTAREIRA

O período recente de 2014 e parte de 2015 mostrou vazões muito abaixo da média na disponibilidade hídrica do sistema Cantareira. A vazão média de 2014 foi cerca de 22,4% da média de longo período, quando no histórico o menor valor ocorrido tinha sido de 56% da média de longo período. Em 2015, apesar do início seco a média ficou cerca de 54% da média de longo período. O período 2014 – 2015 é realmente excepcionalmente baixo e na maioria dos meses fica abaixo do intervalo de probabilidade de 95%.
Examinando a série de vazões (desde 1930), observa-se que este período está dentro de uma tendência de vazões baixas de longo prazo iniciada em 1991. Na figura abaixo pode-se observar os valores anuais (pela média) e a média móvel de cinco (linha vermelha). Observa-se uma redução sistemática da entrada de vazões no Cantareira. A vazão média de longo período é de 38,8 m3/s. Até 1990 esta vazão média era 41,21 m3/s e no período 1991-2015 ficou em 32,38 m3/s. Como a retirada de água era da ordem de 31 m3/s, o sistema não teria condições de sustentar esta retirada no período recente.
Um reservatório, sem restrições para jusante geralmente pode sustentar uma regularização de 70% da média num clima como o Sudeste. Portanto o Sistema tinha condições de suportar os 31 m3/s para São Paulo até 1990, depois disto o sistema passou para um regime de vazões menores, até culminar com o ano crítico de 2014. Caso as séries afluentes tenham um regime semelhante ao dos últimos 24 anos, a capacidade de regularização pode ser da ordem de 22,6 m3/s. No entanto este número é ainda uma especulação devido as seguintes incertezas:
• Variabilidade climática de longo prazo: o regime de chuvas e comportamento climático futuro pode reproduzir o período recente ou retornar a períodos anteriores. Este tipo de comportamento de variabilidade interdecadal é observado em diferentes regiões do mundo que passam por períodos secos e úmidos com duração indefinida;
• Uso da água à montante na bacia: Pode existir a demanda a montante do sistema que reduz a vazão para jusante. Este é um fator que pode ser avaliado com mais dados.
Considerando a importância deste manancial e a demanda da Região Metropolitana de São Paulo é importante verificar a demanda a montante (segundo aspecto) acima para descartá-lo ou incorporá-lo. Com base neste resultado pode-se desenvolver cenário de oferta em função da tendência climática de longo prazo para a sua gestão de risco de oferta.

cantareira
Figura – Vazões adimensionais afluentes ao Cantareira e sua media móvel de 5 anos

EVENTOS CRÍTICOS E RESILIÊNCIA

A infraestrutura desenvolvida para a sociedade se baseia numa probabilidade ou risco de ocorrência de eventos naturais, tanto para disponibilidade hídrica como para eventos extremos de inundações, além de acidentes.
Como na vida de qualquer pessoa, assumimos um risco ao atravessar a rua, dirigir um carro, no tipo de alimentação, entre outros. Da mesma forma, quando é realizado um projeto de abastecimento de água, a disponibilidade hídrica de um manancial tem um risco de ser menor que a demanda da cidade ou quando ocupamos uma área com uma casa, existe um potencial risco de inundação maior ou menor de acordo com o local. Estas condições são inerentes a vários cenários da vida da população.
Nissam Taleb, no livro “A lógica do Cisne Negro”, analisa que planejamos dentro “médio cristão”, ou seja com base nas estatísticas frequentes de ocorrência dos processos e critica a falta de exame das condições que chama “extremo cristão”, que é o exame dos casos raros estatísticos, que são desprezados em vários setores, como no mercado financeiro.
As condições estatísticas extremas podem ser evitadas por custos muito altos, mas é possível planejar estes cenários para se obter maior “resiliência “ou resistência aos extremos. Na última matéria tratei da segurança hídrica, que é uma terminologia utilizada para desenvolver um planejamento no setor hídrico para aumentar esta resistência. Existem várias terminologias para retratar isto, como: mitigação, adaptação, resiliência, entre outros. Existem autores que dão definições diferenciadas para estes termos, mas no fundo o objetivo sempre é procurar reduzir a vulnerabilidade social, econômica e ambiental às condições extremas. Entenda-se aqui, como condições extremas, eventos de secas, acidentes, eventos de inundações, ou seja todos os eventos que ultrapassam as condições de projetos ou de desenvolvimento.
É comum ouvir a seguinte afirmação: Quando estes eventos ocorrem, nada se pode fazer. No entanto, esta não é uma atitude correta. Um projeto, mesmo que projetado para um risco muito baixo pode criar mecanismos de resiliência para que a vulnerabilidade seja baixa para os cenários de risco ainda menor. Para isto, deve-se considerar os seguintes fatores: (a) duração esperada dos eventos; (b) potenciais impactos e suas alternativas; (c) relevância do impacto as estas condições; (d) medidas preventivas e de emergência que reduzam os impactos.
Alguns exemplos deste tipo de cenário são:
• Para uma área de risco que será desenvolvida para ocupação ou que já estava ocupada é construído um dique de proteção contra inundação. Em função do custo é definido o tempo de retorno de 100 anos para a cota do dique. Este dique tem probabilidade de ser superado em 1% em qualquer ano, mas tem probabilidade de 40 % nos próximos 50 anos. Não é um risco trivial, mas construir um dique mais alto tem um custo muito alto, como o projeto pode aumentar a sua resiliência? Algumas medidas são: (a) Prever um local para romper que reduza o impacto da onda, aumentando o tempo de formação de brecha e amortecendo a onda; (b) prever a verticalização da ocupação do solo, espaçada por áreas verdes de uso comum, reduzindo o impacto nas moradias e usando os primeiros pisos para estacionamento; (c) sistema de alerta; (d) plano de emergência.
• Para uma cidade que se abastece de um rio pode entrar em seca e reduzir a disponibilidade (mesmo com reservatório) ou pode ocorrer um acidente que inviabiliza o uso da água. Neste caso, as alternativas poderiam ser: (a) Evitar que o sistema fique no limite da demanda x disponibilidade, aumentando a segurança hídrica da disponibilidade, incorporado no custo; (b) Planos de reuso para usos não nobres; (c) Plano de racionamento; (d) Aumento da eficiência e conservação; (e)Mananciais alternativos que podem ser acessados de forma emergencial; (f) proteção dos mananciais e rotas a acidentes; (g) Plano de redução de demanda; (h) plano de emergência. O maior custo é o da falta da disponibilidade.
Um outro aspecto importante é a avaliação permanente das tendências das séries de longo prazo, para estar atento a variações interdecadais de clima que podem comprometer a segurança hídrica. No Sul, parte do Sudeste e parte do Centro – Oeste brasileiro se observou depois de 1970 uma tendência de aumento de precipitação de vazão por pelo menos 30 anos, enquanto isto em parte do Centro – Oeste e Nordeste se observa uma tendência de redução da vazão desde 1991. A população tem pouca resiliência a eventos prolongados como este.

Segurança hídrica

A segurança hídrica é uma denominação abrangente sobre a busca de garantia para a disponibilidade hídrica nos diferentes usos (inclusive o ambiental). Envolve a gestão dos riscos que a população e o ambiente estão sujeito quanto a extremos de secas e inundações e de falhas de gestão. Este termo tem sido mais utilizado para garantir a disponibilidade hídrica como se observou mais recentemente com a seca observada em 2014-2015 no Brasil.
A avaliação segurança hídrica envolve as fontes de riscos como: variabilidade e mudança climática, alterações antrópicas nos sistemas hídricos como desmatamento, urbanização, construção de barragens e na ação humana na gestão dos sistemas. Na avaliação de risco deve-se observar as metas relacionadas aos impactos, mitigação e vulnerabilidade quanto as condições ambientais, sociais e econômicas.
A prática tradicional da engenharia de projeto em recursos hídricos é do dimensionamento dos sistemas hídricos como barragens, aduções para população e industrias, entre outros, considerando um risco de atendimento, por exemplo 95%. No entanto raramente os projetos estão preparados para as consequências dos 5% de chance de ocorrer um cenário desfavorável, pois geralmente pode elevar o custo final dos projetos ou mesmo por imprevidência.
Um exemplo recente é o que ocorreu na Região Metropolitana de São Paulo com a falta de água devido a um período superior a 1 ano de vazões muito baixas com risco inferior a 1% da série de 84 anos. Onde está a resiliência, do sistema a um cenário tão desfavorável? Parece razoável ter um Plano B para o cenário desfavorável.
Atualmente com o aumento do risco relacionado ao clima, modificação da demanda, falta de gestão, incertezas na avaliação do risco, aumentam ainda mais este tipo de problema. Cabe sempre a pergunta, o que fazer para o cenário em que ocorre vazão além do projeto?
Uma das práticas atuais é desenvolver mitigações ou adaptações da população ou ambiental que pode ser afetado. Por exemplo, ao projetar um dique de proteção com inundações para uma cidade, uma medida de resiliência é planejar ao longo do tempo uma alteração na urbanização de casas para edifícios, com espaços verdes. Neste último caso, na eventualidade do dique ser ultrapassado a população atingida nos seus bens é menor.
Um exemplo deste processo vem na legislação de segurança de barragem, onde existe o Plano de Segurança da barragem, que atua preventivamente para evitar que a mesma rompa, mas também existe o PAE Plano de Ação de Emergência que determina a população que pode ser atingida e as medidas a serem tomadas durante o evento.
Para a disponibilidade hídrica, existem várias medidas que podem ser tomadas, desde que estabelecida num PAE para este caso. Por exemplo, previsão de vazão para medidas de racionamento com antecipação, projetos emergenciais com uso de água mais distante e de custo maior, entre outros.
Considerando as incertezas climáticas é razoável supor que todos os projetos hídricos deveriam possuir uma avaliação de risco e medida de ação em situação de emergência.
Um risco maior e de difícil prevenção e mitigação ocorrer quando a seca ou as enchentes ocorrem numa sequência longa de anos. Este é um assunto para outro texto.

Gestão integrada de águas urbanas

Este tema abordei anteriormente neste espaço, mas é importante retomar pelas dificuldades de implementação de um processo sustentável de gestão para as cidades. Águas Urbanas é um termo utilizado nas últimas décadas para retratar o conjunto da infraestrutura de água na cidade e sua relação com o uso do solo que é o agente principal do impacto com a conservação ambiental e qualidade de vida, tendo em conta os aspectos institucionais que são os meios de levar a cabo este planejamento.
Esta terminologia se diferencia dos serviços de Saneamento porque busca uma integração mais ampla entre as infraestruturas urbana e estabelece objetivos de sociedade. O saneamento como serviço tem sido desenvolvimento fragmentado tanto nas suas relações com o uso do solo como na gestão institucional, além da falta de objetivos de sociedade que são a qualidade de vida e o meio ambiente.
Você conhece alguma cidade no Brasil ou em país em desenvolvimento, em que os rios, riachos ou ribeirões (a nomenclatura depende da região) que cruzam a cidade estão limpos? Acho que não !! Porque não existe este objetivo na prestação dos serviços de saneamento, quanto existem o serviço.
A estratégia tem sido sempre de usar um manancial limpo próximo da cidade (sem ocupação na bacia) para abastecer a população. Com o tempo este manancial se contamina por falta de tratamento, pois não existe interesse em tratar e quando existe não funciona. A lógica é buscar água limpa cada vez mais distante. A crise observada principalmente em São Paulo é resultado da escassez de qualidade, não de quantidade. Muitos podem dizer que a carga é tão grande que não é possível tratar. Lamento, mas é uma desculpa de projetos ineficientes ou a falta de investimentos adequados. Los Angeles usa 20% do esgoto tratado. O problema é que a escassez não tinha batido a porta no Brasil (exceção do semiárido).
A gestão integrada busca integrar os serviços dentro de uma institucionalidade adequada e buscar uma estratégia para cidade que integre uso solo, infraestruturas e serviços para atingir metas de qualidade de vida e ambiental.
Esta estratégia usualmente tem três etapas:
Fase 1 : Recuperação ou desenvolvimento sustentável integrado de infraestrutura como: vias de transporte, comunicação, energia e na água: abastecimento, coleta e tratamento de esgoto, drenagem e inundação, gestão dos resíduos sólidos. Estes elementos necessitam de projetos que integrem estes espaços;
Fase 2: Amenidades, áreas de conservação e proteção ambiental e infraestruturas públicas de cultura e educação associados as infraestruturas da fase 1 como parques (que podem ser usados para amortecer inundações, melhorar a qualidade da água, mas limpos do esgoto); escolas integradas, museus, recreação, entre outros;
Fase 3: Investimentos privados e públicos como hotéis, universidades, shoppings, habitação coleta, etc que tragam áreas de interesse e principalmente empregos e impostos para recuperação dos custos de investimentos e manutenção da infraestrutura.
Os problemas são integrados, infelizmente o planejamento e projeto tem partilhado os mesmos e gerado mais problemas que soluções. Portanto, é necessário retomar a integração dentro de objetivos de sociedade.

A SECA “PERFEITA”

Períodos secos possuem uma frequência de ocorrência que pode ser de anos isolados ou sequências de anos. Normalmente as situações mais severas são sequências de anos secos ou um ou mais anos muito abaixo da média. Normalmente as condições de sequências de anos faz com que a população perca a sustentabilidade e na história existem relatos de populações que mudam de locais devido ao permanente período seco. Em hidrologia foi cunhado um termo para sequências hidrológicas com períodos acima ou abaixo da média, como de Noé e José, (como relatos da bíblia).
Alguns programas de TV têm tratado de desastres naturais como inundações e utilizado a palavra “perfeita” como por exemplo, a tempestade perfeita, onde combinações de fatores muito desfavoráveis produzem um cenário nunca visto ou muito crítico.
O que está ocorrendo na região Sudeste do Brasil e, especial da Região Metropolitana de São Paulo, pode tender para uma chamada “seca perfeita”. As causas não são isoladas, mas combinadas e as principais que se inter-relacionam são:
• O período hidrológico é severo, nunca registrado e, mesmo comparando com outras regiões é muito raro ter um ano com 30% da vazão média de longo período, depois de um ano anterior ainda seco;
• Poderá ainda ser pior se esta for uma sequência de anos secos, como já aconteceu no Pantanal (13 anos de vazões muito abaixo da média de 1960 a 1973); no rio Uruguai no RS de 1942 a 1951 (que pode ter motivado a migração dos gaúchos para o Paraná e outros Estados);
• Grande concentração de demanda numa área, 20 – 22 milhões de pessoas que ocupam da ordem de 2.000 a 3.000 km2. Na parte superior da bacia, onde a oferta de água é pequena;
• Baixa eficiência do sistema oferta de água por tratamento e distribuição e baixa conservação por parte da população e falta de tratamento dos esgotos gerados produzem aumento da demanda e redução da disponibilidade por contaminação. A proporção de tratamento de esgoto em São Paulo é de 52%, o que é lamentável para um Estado rico.
• Para abastecer a cidade com a população de 22 milhões nesta região seriam necessários pelo menos 5.000 km2 de bacia hidrográfica com regularização de vazão. Como a cidade pelo seu desenvolvimento contaminou os mananciais de água de água, a área total necessária seriam 8.000 km2 (3.000 km2 para ocupação e contaminação e 5.000 km2 para abastecimento). Isto não existe, pois a bacia hidrográfica do Tiete a jusante de São Paulo tem da ordem de 3.000 km2. Isto levou a importação de água do Cantareira e provavelmente será necessário de outras bacias a custos altos. Este é o resultado da má gestão dos recursos naturais dentro de uma visão mais integrada.
• A natureza vem dando sinais de condições críticas desde 2000 (ou antes) com condições críticas de oferta e demanda, mas a gestão do sistema tem mantido a “emoção” do risco de falta de água. Aqueles que foram mais precavidos perfuraram poços e estão mais tranquilos, mas a maioria está dentro de um risco importante.
Este desastre hídrico ambiental é um processo cumulativo de gestão do espaço e de infraestrutura de água que aparece em São Paulo pela sua magnitude, mas que ocorre em todo o país. É mais grave nas cidades que estão nas cabeceiras dos rios. Exemplo: Brasília, Goiânia, Curitiba, etc.
Planejar obras assumindo um determinado risco é normal na engenharia, o problema é não estar preparado para o risco, quando ele vier. É evidente que um cenário de seca como o atual leva ao racionamento e gestão da escassez, o problema é o seu agravamento pela falta de medidas preventivas de resiliência que permita reduzir os impactos.

RISCO DE UM PROJETO HÍDRICO

Risco é a probabilidade que o usuário está disposto a correr no dimensionamento de um projeto. Incerteza é o erro na estimativa do risco devido a informações ruins, metodologia inadequada ou amostras insuficientes. Usualmente o risco é expresso pela probabilidade de ocorrência num ano qualquer de um valor acima ou abaixo de um valor definido ou o tempo de retorno (em média é o tempo no qual um evento se repete em anos). Estes elementos básicos não são muito bem compreendidos quando se determina o risco de um projeto. Na maioria das vezes os profissionais adotam um risco porque tem sido usado por outros, sem um julgamento do valor adequado. Esta é uma prática ruim porque a definição do risco é a meta final de um projeto e o projetista está negligenciando a sua escolha.
Alguns parâmetros básicos devem ser seguidos na definição do risco que são:
(a) Qual o período de vida útil do projeto em estudo? Qual o risco associado no período?
O uso do tempo de retorno permite conhecer o risco de um ano qualquer, mas não permite saber o risco da sua vida útil. Um projeto de controle de inundações com 100 anos de tempo de retorno tem a probabilidade de 26% de entrar em colapso nos próximos 30 anos. Esta é uma probabilidade alta se houver risco de morte.
A escolha do tempo de retorno de projeto de uma ensecadeira é outro exemplo. Considerando que a construção de uma barragem deve durar 5 anos, ao usar o tempo de retorno de 25 anos está sendo adotado um risco de 18,5 % no período, que é muito alto se as consequências a jusante forem de vida humana.
(b) Quais as consequências econômicas, sociais e ambientais do projeto falhar? Estou disposto a correr este risco? Qual deve ser o risco que estou disposto a correr?
Construir uma casa numa área de inundação com risco de 5 anos de tempo de retorno tem 89% de chance de ser destruída em 10 anos. Não é sustentável reconstruir uma casa a cada 10 anos.
O risco de morrer num acidente aéreo que tem probabilidade de 1 para 1,5 milhão para cada viagem. Para uma pessoa que viaja 30 viagens por ano durante 30 anos o risco do período é de 0,06%, portanto aceitável quando se refere a vida humana.
Quando se adotam riscos alto, como por exemplo em drenagem urbana, a definição está mais relacionada com os prejuízos econômicos resultantes. Como os eventos mais frequentes são os problemáticos, a redução de prejuízo ocorre para tempos de retorno menores, aceitando-se eventos com frequência menor. Estima-se que com 10 anos de tempo de retorno 85% dos prejuízos sejam cobertos por este tipo de projeto. Assim, mesmo que o mesmo ocorra, a reposição dos prejuízos é inferior ao custo de implementar um projeto mais caro para tempos de retorno maiores.
(c) Planejar as condições de risco para reduzir os prejuízos quando os mesmos ocorrerem. Os projetos de engenharia raramente abordam este cenário. Este é o tema de uma nova matéria.

RETOMADA DO BLOG

Por cerca de dois anos deixei de colocar matéria neste blog devido ao excesso de trabalho. Não conseguia conciliar compromissos profissionais com o tempo necessário para manter regularidade de textos neste espaço.
Depois de refletir muito sobre o assunto cheguei a conclusão que mesmo com periodicidade menor seria importante colocar a opinião e conhecimento que tenho desenvolvido neste período e ao longo dos últimos anos.
O incentivo de preparar o blog foi de apresentar uma visão de conhecimento técnico sobre um setor interdisciplinar relevante para a sociedade. Um texto curto permite introduzir novas ideias para discussão, considerando que para preparar artigos científicos levam tempo. Certa vez num evento, um aluno perguntou a um professor que estava conversando com colegas se ele não iria participar de uma sessão de artigos. Ele respondeu que o que acontecia na sessão estava de 1 a 2 anos no passado e o que ele discutia era o futuro.
Ao longo deste tempo de silêncio sem matérias, verifiquei que muitas pessoas continuam acessando o mesmo como fonte bibliográfica, já que os assuntos abordados não se perderam no tempo. Além disso, tenho recebido comentários que me incentivam a retornar ao blog.
Este é um texto inicial para retomar o blog, mas provavelmente com uma frequência de 2 duas semanas ou mesmo um mês em função dos compromissos.
Desta forma, gostaria de receber comentários sobre temas que gostariam que fossem abordados e comentários sobre o que foi e será postado no futuro.

Com exceção do Semi-árido a relação recente do país com a água tem sido mais de inundações do que com secas. Neste ano de 2014 o noticiário tem sido povoado por duas crises principais: (a) a seca que atingiu os mananciais da Região Metropolitana de São Paulo; (b) acrise que estamos iniciando a pagar que é a produção de energia hidrelétrica sobre a principal bacia produtora que á bacia do rio Paraná.