CONTROLE DOS IMPACTOS DA DRENAGEM URBANA

Nas últimas semanas temos abordado o controle do impacto quantitativo devido a drenagem urbana nas cidades. No entanto existem outros impactos que somente foram abordados depois que o impacto mais visível devido a quantidade da água começou a ser controlado e a poluição dos rios, áreas degradadas e rebaixamento dos aqüíferos tornaram-se bastante visíveis e foram avaliados. Na tabela abaixo é apresentada uma síntese dos impactos suas causas e as medidas potenciais.

Recarga

O volume de recarga por unidade de área (m3/ha) pode estimado como

Vra = 10.R.(I/100)

Onde: R (mm) é a recarga do aquífero e I (%) é a área impermeável no caso de novos desenvolvimentos e o aumento da área impermeável para locais que estejam sendo novamente ocupados. O valor de R pode ser definido em função da recarga natural na região com base no tipo de solo (SCS).
O volume também pode ser estabelecido como uma porcentagem do volume total de uma chuva de projeto. No estado de Wisconsin adota 10 a 25% do volume da chuva de 2 anos de tempo de retorno e 24 horas de duração deve ser infiltrada, dependendo do tipo e uso (% de áreas impermeáveis) do solo. Para alcançar a meta de recarga podem ser utilizadas medidas de controle como trincheiras de infiltração, valos gramados, pavimentos permeáveis e também de técnicas de planejamento do local .

Qualidade da água

A prática americana através da EPA identificou que tratando uma parcela dos sólidos suspensos totais (SST) do escoamento pluvial o objetivo de reduzir a carga anual do escoamento em 80% é atingido. As metodologias usadas são :
(a) USEPA: A regulação adotada pela EPA estabelece que tratando o escoamento pluvial correspondente à chuva de 2 anos de tempo de retorno e duração de 24 horas a meta de redução dos poluentes é atingida;
(b) “Regra dos 90%”: Admite que capturando e retendo e escoando por 24 horas o volume de chuva correspondente a duração de 90% dos eventos de chuva do local a sedimentação retira grande parte dos poluentes.
O volume necessário , Vqa (m³/ha), pode ser estimado com base no seguinte:

Vqa = 10.P.C

Onde: P é a precipitação em mm/dia; C é o coeficiente de escoamento que pode ser estimado por C = 0,05 + 0,9 Ai, sendo Ai a parcela da bacia com áreas impermeáveis (valor entre 0 e 1).

Erosão

A prática usada é de armazenar e liberar gradualmente o volume gerado pelo evento de 1 ano e 24h, em um período de 24 horas ou mais, para que sejam controladas as velocidades erosivas no canal durante a passagem da cheia. Embora esta alternativa possa ser efetiva na proteção do canal, do ponto de vista operacional existem sérias limitações na aplicação da regulação. Para locais com área impermeável menor que 2 ha, por exemplo, o tamanho dos orifícios da tomada de água necessários para cumprir a regulação tornam-se muito pequenos, e ficam sujeitos ao entupimento. Para contornar esse problema esta regulação de proteção do canal não é exigida nos seguintes casos: (a) o volume total relacionado a proteção do canal é recarregado para o aquífero; (b) Locais com área menor ou igual 2 ha de área impermeável; (c) locais que descarregam em rios de quarta ordem, lagos, estuários e que tenham área menor que 5% da área da bacia a montante do desenvolvimento.

controledrenagem 1 - controledrenagem 1

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VOLUMES DE CONTROLE DA DRENAGEM URBANA II

Na semana passada mostramos como você pode calcular o volume de controle para garantir que a vazão de saída será menor que a vazão de pré-desenvolvimento. Nesta semana vamos mostra algumas experiências no Brasil e no exterior.

Belo Horizonte: No Plano Diretor Urbano de Belo Horizonte de 1996 foram previstas áreas permeáveis de acordo com a zona da cidade (como na maioria das cidades). Foi previsto na regulação que o proprietário pode substituir a área permeável por um reservatório na relação de 30 l para cada 1 m² impermeabilizado. Foi prevista uma exceção, em que a viabilidade da construção do reservatório dependia de um parecer de um engenheiro. Na prática observou-se que o proprietário construía a área impermeável e depois obtinha um parecer do engenheiro inviabilizando o reservatório. Desta forma, nenhum reservatório foi construído. Mesmo que o reservatório fosse construído não resolveria o problema, pois o restante da superfície continuaria impermeável e o aumento da vazão ocorreria. Este valor corresponde a 300 m3/ha, valor menor que o obtido para Porto Alegre de 425 m3/ha. Considerando que a chuva de 10 anos 1 hora de Porto Alegre é metade da Belo Horizonte, o volume deve ser ainda maior.

São Paulo – A lei das piscininhas de São Paulo que estabelece uma equação de volumes para amortecimento de inundações utiliza 90 m3/ha para áreas impermeáveis, valor muito baixo para ter algum efeito sobre a drenagem urbana, considerando ainda que a chuva de 1 hora 10 anos de São Paulo é maior que Porto Alegre. Estima-se que representa apenas 20% do volume necessário.

Brasília e Campo Grande- Foi utilizada a metodologia de Porto Alegre para estas duas cidades e devido a sua chuva maior, os volumes são respectivamente de 470 m3/ha e 585,8 m3/ha para áreas impermeáveis.

Estados Unidos: Algumas cidades adotam para controle quantitativo os tempos de retornos de 10 e 100 anos ou apenas 10 anos, com vazões prévias de 10 a 16 l/(s.ha) e os volumes variam com a intensidade de chuva de cada região em valores mais baixos que os brasileiros devido a menor intensidade de clima temperado.

Austrália: De modo geral o valor as vazões nas municipalidades australianas variam entre 80 a 300 l/s.ha e os volumes de 200 a 550 m³/ha. O tempo de retorno geralmente adotado é de 100 anos. O diâmetro mínimo do orifício de saída dos OSD é limitado em 25 mm, para evitar entupimentos das estruturas. Deve ainda existir uma proteção interna de grade. A profundidade máxima admissível para os tanques enterrados é 60 cm.
Este panorama breve mostra que os valores obtidos para Porto Alegre, Campo Grande e Brasília são razoáveis. O que se pode alterar é utilizar mais de um tempo de recorrência para dupla verificação. Na semana próxima vamos discutir o controle sobre Erosão e Qualidade da Água.

*** Duas semanas atrás coloquei uma equação da vazão de pré-dimensionamento com o coeficiente errado. Fiz a correção, favor verificar.

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VOLUME DE CONTROLE DA DRENAGEM URBANA I

Na semana passada apresentamos os critérios de cálculo da vazão de pré-desenvolvimento para regulamentação das áreas urbanas para evitar o aumento do escoamento e transferência dos prejuízos na cidade.

Como alternativa para controle da vazão pode-se utilizar: infiltração por pavimentos permeáveis, trincheiras de infiltração ou pelo armazenamento temporário. As alternativas de infiltração são sempre melhores pois garantem que o aqüífero continuará sendo alimentado. O uso de armazenamento é uma alternativa muito utilizado e pode ser estimado com base na seguinte metodologia:

V/A = 0,06.(qu – qp) t

Onde qu é a vazão depois de urbanizada a área em l/(s.ha), qp é a vazão de pré-desenvolvimento, l/(s.ha) e t a duração e minutos; k é um fator de conversão de unidades e V é obtido em m3 e A é a área em ha. O valor Qpd foi determinado como apresentado na matéria da semana passada e

q =27,8 C.I

sendo C = 0,15+0,8Ai onde Ai é a área impermeável entre 0 e 1; I é a intensidade da chuva que depende da duração t e do tempo de retorno T. I = f(t,T). Fazendo variar a duraçào é possível maximizar V para o tempo de retorno e Ai, resultando numa relação do tipo
V/A = 4,25 Ai

Como obtido para Porto Alegre, onde a vazão de pré-desenvolvimento é 20,8 l/(s.ha). Portanto o coeficiente da equação de volume indica que para 1 há de área impermeável serão necessário 425 m3 de armazenamento para amortecer e manter a vazão de pré-desenvolvimento. Este coeficiente pode variar para cidade em função da IDF da cidade.
Usando modelos hidrológicos os alunos do IPH testaram vários eventos e condições, verificando-se que este tipo de critério atende as diferentes condições.

O decreto utilizado em Porto Alegre utiliza o critério acima, mas incentiva o uso de infiltração. O importante é garantir que a vazão de saída fica limitada a vazão de pré-desenvolvimento. Esta vazão é verificada na conexão entre a drenagem privada e pública.
A regulamentação de Porto Alegre pode ser copiada em: http://www.rhama.net/reguladrenagempoa.doc

Na semana próxima vamos comparar este critério com as legislações de outras cidades brasileiras, quanto aos volumes estimados.

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COMO REGULAR A DRENAGEM URBANA I

A forma como a drenagem urbana é construída nas cidades faz com que o escoamento aumente e a macro-drenagem fique sobrecarregada. Em conseqüência disto a freqüência das inundações aumenta produzindo o que vemos todos os meses numa cidade perto de você. Este é o resultado de que cada novo loteamento transfere para a macro-drenagem o aumento do escoamento, como mostra a figura 1 abaixo.

Neste cenário, o ônus da impermeabilização e aumento do escoamento que deveria ser do proprietário privado é transferido para o público, na forma de prejuízos ou de obras de macro-drenagem que toda a cidade paga. Cada m2 de área impermeável aumenta da ordem de 6 a 7 vezes a vazão de cheia. Desta forma, quando ocorre uma inundação, a cidade que aprovou este loteamento deveria indenizar as pessoas prejudicadas.

Para evitar que isto ocorra algumas cidades promoveram regulação para os novos empreendimentos. Nesta série de artigos vamos apresentar como isto vem ocorrendo e qual é a melhor prática. Nesta semana vamos inicialmente tratar do que deveria ser a vazão que deveria ser mantida no lote ou loteamento para que seu proprietário não transferisse seu impacto para o público.

A vazão específica (por unidade de área) de saída de uma área natural pode ser estimada pelo método racional para uma área pequena por

q=Q/A = 2,78 C. I

Onde q é obtido em l/(s.ha); C é o coeficiente de escoamento; I é a intensidade da chuva em mm/h para a duração igual ao tempo de concentração da bacia; A área da bacia hidrográfica em ha.

O coeficiente de escoamento C representa a quantidade da chuva que gera escoamento superficial, que pode ser expressa

C = Cp + (Ci-Ci) AI

Onde Cp é o coeficiente de escoamento da área permeável; Ci é o coeficiente de escoamento da área impermeável; Ai é a proporção de áreas impermeáveis para valores entre 0 e 1. O valor de Cp varia entre 0,05 a 0,20 com base nas tabelas do Manual da ASCE (Sociedade dos Engenheiros Civis Americanos e com base no SCS) e Ci = 0,95, pois uma parte do volume fica nas superfícies impermeáveis ou se perde por evaporação. Na figura 2 abaixo pode-se observar com dados do Brasil e Estados Unidos em várias bacias que Cp = 0,05 e Ci = 0,95, resultando em C = 0,05 + 0,9Ai.

Na norma da cidade de Porto Alegre para vazão de pré-desenvolvimento (Ai =0) foi adotado o valor de C= Cp= 0,15 para a mesma norma, utilizou-se a chuva de 10 anos de tempo de recorrência como risco e duração de 1 hora, resultando para 10 anos na primeira equação acima que q = 20,8 l/(s.ha).

Esta foi a vazão adotada no decreto de regulamentação de Porto Alegre como a vazão a ser preservada em qualquer novo empreendimento a ser construído e qualquer outro que venha ter reforma e aprovado na Prefeitura. O controle desta vazão é realizado quando a drenagem da área privada entra na área pública. Este sistema está vigorando desde 2000, com resultados bons. Usando este mesmo procedimento você pode calcular a vazão de restrição para a sua cidade. Este mesmo critério foi proposto para as cidades Campo Grande e Brasília

Na semana próxima mostraremos como pode-se estimar o volume de controle quando for utilizado o reservatório e como se compara com a regulação existente em outras cidades brasileiras.

aumentovazao - aumentovazao
figura 1 aumento do escoamento com a entrada dos loteamentos

cescoamento - cescoamento
fugura 2 coeficiente de escoamento em função da área impermeável

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DESAFIOS DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA EM RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL

Recentemente fui solicitado a sugerir quais os desafios de ciência e tecnologia para recursos hídricos no Brasil. Este é um exercício de muitos para convergir para consensos e necessidades, mas procuro encaminhar algumas idéias aqui.
Como Recursos Hídricos é uma área do conhecimento interdisciplinar, portanto se utiliza de conhecimento de várias áreas as pesquisas se inserem muito mais no contexto de interações de conhecimento para explicar comportamentos e manejar os recursos os recursos e sua aplicação num contexto de melhoria de qualidade de vida e conservação e preservação ambiental.

Dentro desta ótica, a seguir são apresentados macro áreas de desenvolvimento de conhecimento que englobam vários sub-temas.

1.PROCESSOS REGIONAIS E GLOBAIS HIDROCLIMÁTICOS: A dimensão hidrológica e climática que permite pesquisas as interações dos processos climáticos, hidrológicos ecológicos como base da sustentação do homem e seu ambiente;

2.PROCESSOS HIDROLÓGICOS EM ESCALA NAS BACIAS HIDROGRÁFICAS. Aqui hidrologia envolve todos os aspectos da água e suas funções relacionados com ar e solo, dentro dos aspectos físicos, químicos e biológicos. A escala está relacionada com a não – linearidade observada em diferentes estágios dos processos e as conseqüências dos antropismos. Neste contexto está a observação e monitoramento dos sistemas hídricos representativos da realidade brasileira, incluídos aqui os costeiros;

3.GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS: envolvem a visão integrada dos usos e impactos na bacia hidrográfica, suas inter-relações sócio-econômicas e ambientais do desenvolvimento sustentável. Neste contexto está a gestão dos: recursos hídricos urbanos, desastres naturais, gestão integrada dos recursos hídricos e do meio ambiente e gestão setorial dos usuários dos recursos hídricos;

4.DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO DE EQUIPAMENTOS: O conhecimento do comportamento dos processos, otimização de sistema e o controle quantitativo e ambiental dependem de observação e medição dos processos e dos condicionantes dos recursos hídricos. A evolução de equipamentos e campo, laboratórios, de operação e funcionamento de sistemas como para tratamento de água, esgoto, perfuração de poços, entre outros. Este componente é essencial para dar sustentabilidade ao conhecimento e a gestão dos recursos hídricos.

5.DESENVOLVIMENTO DE FERRAMENTAS COMPUTACIONAIS: modelos de comportamento, otimização e gestão, automação de sistemas hídricos entre outros. Este conjunto forma um grande grupo de desenvolvimento estatístico e matemático de apoio aos outros aspectos de pesquisa.

Estas áreas não são estanques e nem representam setores tradicionais relacionados com os aspectos sócio-econômicos como: irrigação, saneamento, abastecimento, drenagem, meio ambiente, mas procuram dar um contexto mais integrado ao desenvolvimento de ciência e tecnologia na área. Evidentemente que diferentes pesquisadores podem retratar outros recortes de pesquisa.

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AINDA SOBRE AS INUNDAÇÕES

Na semana passada falamos das inundações do Nordeste e toda a semana poderia discutir outros eventos como os do Sul do Brasil desta semana, inundações da China e o rompimento da barragem que ocorreu em Iowa, Estados Unidos neste final de semana (veja resumo abaixo). É importante ressaltar que estas inundações ribeirinhas fazem parte da natureza e que a ação do homem é que faz com que agravem o problema, geralmente devido ao seguinte:

•Construções de barragem, diques e obras que entram em colapso e podem aumentar o pico. Como é o caso desta semana em Iowa ou mesmo as pequenas barragens que romperam em Alagoas nas últimas semanas. No entanto, o efeito de barragens ocorre logo à jusante quando o volume e a altura da barragem são importantes, que não parece ter sido o caso das ocorridas no Nordeste;
•Ocupação do leito de inundação pela população ficando vulnerável a estes problemas;
•Aumento da vazão pela urbanização e canalização;
•As mudanças climáticas é ainda uma questão discutível, mas poderia estar aumentando a freqüência.

É normal buscar culpados por um evento com prejuízos e mortes, mas pior é continuar inerte sem preparar nenhuma prevenção. Portanto, se for necessário culpar alguém culpe a falta de prevenção da nossa sociedade organizada. No caso de Iowa que ocorreu neste sábado, a prevenção foi importante para diminuir os prejuízos, veja as matérias nos sites destacados abaixo.

Eventos na China – nas últimas semanas as enchentes têm forçado 100 mil pessoas deixarem suas casas, 742 pessoas já morreram e 367 estão desaparecidas e 120 milhões afetadas, com custos até o momento de 22 bilhões de dólares. A barragem de Três Gargantas (funcionando há 4 anos), a maior hidrelétrica em capacidade de geração do mundo elevou-se a 158 m (17 m abaixo da cota máxima) e com as comportas abertas, depois de reduzirem as vazões para jusante com armazenamento. Esta e a pior cheia depois de 1998 quando 4 mil pessoas morreram. Os números na China são sempre grandes, mas muito impactantes. Veja o vídeo abaixo

http://www.youtube.com/watch?v=63LyyvoCTLw

IOWA Estados Unidos – No rio Maquoketa ondas passaram por cima da Barragem de Delhi que levou ao seu colapso neste sábado dia 24. Foi consequencia de fortes chuvas. As cidades a jusante foram evacuadas, o que reduziu seu impacto sobre a população. (Veja os vídeos abaixo). No caso americano não são citadas mortes em função da prevenção!

http://www.accuweather.com/video/248171505001/actual-video-of-the-dam-break-in-iowa.asp
http://www.casttv.com/ext/qp11k7

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AS INUNDAÇÕES RECENTES E A FALTA DE PREVENÇÃO

As inundações recentes mostram a grande vulnerabilidade da população brasileira a eventos de desastres naturais. As inundações em Alagoas e Pernambuco ocorreram em grande parte pela ocupação dos vales de inundações.

A inundação das áreas ribeirinhas é resultado das condições físicas da bacia e do processo climático, que possui uma grande aleatoriedade no tempo, de difícil previsão com grande antecedência. Este ano Paris está “comemorando” 100 anos da inundação de 1910, que produziu grandes prejuízos. Praga passou 100 sem enchentes e depois teve duas seguidas. As inundações são inevitáveis para quem ocupa a margem dos rios. No entanto, é possível determinar seu risco e minimizar os impactos dos mesmos, reduzindo a vulnerabilidade a estes eventos. A vulnerabilidade é maior em regiões pobres onde a capacidade de recuperação é muito baixa pelas condições econômicas e sociais.

A constituição federal define que é responsabilidade do governo federal a mitigação dos eventos de cheia e secas e a lei de recursos hídricos tem entre seus três objetivos a mitigação destes eventos. No entanto, o enfoque das últimas décadas tem sido com obras depois dos eventos ocorridos, sem medidas preventivas que reduzam a maioria dos impactos.
As medidas preventivas estão nas seguintes linhas:

1.Zoneamento das áreas de risco para orientar o desenvolvimento urbano e evitar a ocupação das áreas de riscos, inseridos dentro do Planejamento das cidades;
2.Sistemas de alerta de eventos de inundação que previnam as populações em áreas de risco quando da chegada do evento;
3.Planos de Defesa Civil com meios adequados a atender a população atingida e reduzir a vulnerabilidade de curto prazo durante os eventos.
4.Mecanismos de Incentivos econômicos e de seguro de eventos críticos para as cidades de forma a incentivar a prevenção.
5.Mecanismo Institucional para desenvolver as medidas dentro do país.

Como grande parte destas ações exige atuação conjunta a nível municipal, estadual e federal, a maior vulnerabilidade é ainda institucional, já que as ações do governo federal estão fragmentadas, voltados para obras ã fundo perdido. Nos Estados e Municípios o cenário é ainda pior por falta completa de ações preventivas, apenas com paliativos durante o evento.

Nos Estados Unidos existe um programa de seguro contra inundações e todas as construções com financiamento são obrigadas a fazer este seguro. Todas as cidades têm seu mapa de risco, o que permite a estimativa do prêmio do seguro. De outro lado, quando é projetada uma obra de controle de inundações, o Governo Federal entra com 65% dos recursos e o local com 35%, cobrados dos beneficiários no seu imposto municipal. Esta é uma realidade diferente do cenário nacional, onde os recursos são à fundo perdido. O problema da ajuda com recursos à fundo perdido e sem contrapartida é a falta de incentivo a prevenção.

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PESQUISA E RECURSOS HÍDRICOS II

Estruturar um programa de pesquisa em Recursos Hídricos é sempre um desafio e pode ser estruturado dentro de uma visão de pesquisa básica ou voltada para os problemas específicos da sociedade.
Em 2001 quando foi criado o Fundo de Pesquisa CTHIDRO tive o desafio de estruturar as Diretrizes estratégicas do referido Fundo. A política dos Fundos Setoriais do MCT na época era de desenvolver um mecanismo de financiamento de pesquisas tecnológicas voltadas para as demandas existentes da sociedade, representado pelo governo. No comitê gestor do fundo fazem parte instituições setoriais de governo voltadas para promover o desenvolvimento do país como os Ministérios de Energia e Meio Ambiente, representado pela ANA e a Secretaria de Recursos Hídricos.
Considerando esta ênfase institucional as diretrizes não poderiam enfocar questões puramente disciplinares de Hidrologia, Hidráulica, Qualidade da Água, Economia, Administração, etc.. Também não poderiam enfocar somente sistemas específicos como rios, lagos, reservatórios, entre outros; ou ainda setores do desenvolvimento como saneamento, energia, agricultura, entre outros, mas deveria integrar estes vários aspectos na solução dos problemas da sociedade dentro de uma visão de gestão integrada (veja figura 1). Com base nesta concepção foram geradas as linhas principais, entre elas: água e gerenciamento urbano integrado, variabilidade climática, uso e conservação dos recursos hídricos, previsão de variáveis hidrológicas, entre outros (para acessar o documento procure o site do CTHIDRO).
De forma geral as principais necessidades da sociedade são:
•Sustentabilidade hídrica: água segura, conservação dos recursos hídricos, abastecimento, tratamento de efluentes, controle de inundação e sólidos.
•Setores econômicos: Energia, agricultura e transporte;
•Meio Ambiente: conservação e controle dos impactos, uso do solo, preservação de áreas naturais;
•Gestão de risco: gestão de risco e vulnerabilidade da população e ambiente
•Amenidades: uso de recreação e preservação de valores cênicos.

Pode-se inter-relacionar os setores da sociedade, áreas de conhecimento, estrutura de planejamento e conhecimento necessário para o planejamento e projeto, como mostra a figura 2 abaixo. Desta forma, a pesquisa e as demandas da mesma estão caracterizadas. Esta ligação permite dar foco a cada conteúdo. Na pesquisa básica não é necessário ir buscar estes objetivos, pois a mesma se desenvolve dentro de limites mais estreitos que nem sempre são claros, mas que permite o desenvolvimento do conhecimento.
Nas próximas semanas vamos discutir algumas áreas de conhecimento em recursos hídricos e alguns dos desafios potenciais da pesquisa básica como: hidrologia de escala e os processos relacionados e pesquisas aplicadas e tecnológicas como regionalização de variáveis hidrológicas, integração da gestão dos recursos hídricos, entre outros.

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figura 1 - Gestão de recursos hídricos

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Figura 2 - Integração entre os setores para a pesquisa

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PESQUISA EM RECURSOS HÍDRICOS I

O desenvolvimento de pesquisa pelo aluno de pós-graduação é uma experiência que molda o seu conhecimento e depende muito do orientador, pois este pode dar ao iniciante na pesquisa um caminho construtivo, de dependência ou nenhum dos anteriores. O caminho construtivo é onde o aluno caminha com suas próprias pernas sem a dependência do professor no final do programa.
Como mencionei nas semanas passadas o que diferencia um pesquisador de um técnico é a capacidade deste último em escolher e definir o que pesquisar, enquanto que para o técnico é proposto o problema. A escolha da pesquisa é um livro aberto, principalmente no início do programa, quando o curso solicita um projeto para entrar no programa de pós-graduação. Isto nem sempre é a melhor fora de avaliar, já que uma das tarefas do programa é ensinar ao aluno a ser pesquisador. O que normalmente ocorre é que o programa avalia a capacidade do aluno de propor dúvidas para serem desenvolvidas.
Nesta semana iniciamos alguns textos sobre potenciais aspectos de pesquisas em Recursos Hídricos, não tenho a pretensão de ser extensivo numa área interdisciplinar, mas apontar algumas linhs gerais e algumas perguntas que necessitam ser respondidas pela pesquisa nas áreas que de alguma forma conheço.
O que justifica uma pesquisa? Esta é uma pergunta que deixa o pretende a pesquisador fragilizado e coloca várias dúvidas no seu caminho. É importante ter claro que uma pesquisa se justifica, de forma geral por um dos aspectos genéricos seguintes:
1. Contribuição de conhecimento em processos, métodos ou fundamentos. Por exemplo, um método para estimar evapotranspiração que considere determinadas variáveis adicionais, importantes para diferentes situações; um método que represente o escoamento em grandes áreas de inundações que utilizem dados de satélites; um modelo de otimização de funcionamento c0njunto de barragens e uso de previsão de vazão; etc. No caso dos fundamentos geralmente o seu desenvolvimento esta dentro do âmbito da pesquisa básica;
2. Contribuição a medida de variáveis e processos: geralmente relacionada a experimentação de campo ou laboratório onde pode-se desenvolver meios para estimar determinadas variáveis ou parâmetros de determinados fenômenos. Por exemplo, a chuva da Amazônia pode estar sendo subestimada porque os postos pluviométricos se encontram ao longo do rio, onde tende a chover menos pelo efeito climático da superfície livre de água; novas formas de medidas de turbulência; etc
3. Contribuição ao conhecimento específico de funcionamento dos recursos hídricos e ambiental de determinadas áreas ou problemas específicos relacionados com determinadas áreas. Por exemplo, como lidar com o mexilião dourado que veio do Sul da Ásia no casco dos navios e não encontrou predador na América do Sul, se alastrando-se pelos rios, gerando problemas nas turbinas, condutos e etc. O mexilião é um molusco bivalve, aquático que gruda nos equipamentos sendo necessária sua limpeza. O custo de parar uma turbina de 700 MW para limpeza é alto.
Uma pesquisa pode englobar um ou mais das justificativas acima. A pesquisa que você está pensando ou que está se desenvolvendo se encaixa num dos perfis acima? O que você acha?
Outra questão importante esta relacionada com o nível da pesquisa: conclusão de curso, mestrado, doutorado ou mesmo pós-doutorado. As mesmas não se diferenciam pela quantidade de trabalho, mas pelo nível de contribuição. Os programas de pós-graduação que não possuem mestrado tendem a ser mais rigorosos e exigirem mais no mestrado, pois não possuem o nível seguinte. No entanto, o mestrado deve ser dimensionado para um máximo de 1 ano e deve ter objetivo muito mais tecnológicos e associados ao terceiro item acima, enquanto que o doutorado por dispor de mais de tempo > 2 anos se encaixa mais no perfil combinado dos dois primeiros.
Na próxima semana vamos continuar discutindo o assunto com alguns históricos, como a preparaçãon do coumento de diretrizes estratégicas do Fundo de Recursos do CTHIDRO em 2001.

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PÓS-GRADUAÇÃO EM RECURSOS HÍDRICOS

Na semana passada discutimos a eventual decisão de um graduado buscar a formação em pós-graduação na área de recursos hídricos ou começar diretamente a trabalhar no mercado. Nesta semana vamos comentar algumas escolhas da pós-graduação.

A dedicação ao programa de pós-graduação pode ser parcial ou tempo integral. O tempo parcial limita muito a capacidade de aprendizado e requer muita força de vontade, mas não é impossível, não é o caso ideal. Para dedicação integral a questão é econômica e a maioria necessita da bolsa de estudos. Geralmente os programas possuem bolsas para sua distribuição, que é definida por um processo de seleção. Os melhores programas são os que dependem apenas de um (ou mais) exame de conhecimento. Os programas que dependem de entrevistas tendem a priorizar alunos egressos da própria Universidade (prática infeliz, pois as melhores universidades mundiais tendem a não aceitar os alunos egressos da sua graduação, para que o aluno busque diversificar conhecimento). Recomendo fortemente ao aluno buscar novos conhecimentos e nunca fazer graduação, mestrado e doutorado na mesma universidade ou mesmo programa. Pode ser cômodo, mas é pouco eficiente.

Quando for procurar um programa observe as seguintes características:

•A variedade das disciplinas disponíveis quanto à abrangência em recursos hídricos. Quando mais iinterdisciplinar for o ambiente do curso, mais oportunidades de conhecimento;
•O número de professores efetivamente em tempo integral atuando em pesquisa na instituição, mesclado com professores que atuam também em estudos e projetos;
•Uma instituição com muitos professores com doutorado na própria instituição não é um bom indicador, porque reflete um excesso de endogenia, ou seja, muitos falam a mesma linguagem, quando a diversidade é importante. As conhecidas universidades em nível mundial evitam professores formados na própria instituição.
•A avaliação do curso pela CAPES é útil, mas deve ser usada com cuidado, pois alguns de seus critérios são pouco objetivos: priorizam tempo de formação de alunos o que não tem relação com a qualidade do ensino e pesquisa (isto elimina os alunos em tempo parcial); as instituições se perpetuam nos comitês avaliando indiretamente seus próprios programas; entre outros.
•Procure falar com alunos egressos do programa ou que estão atuando no mercado qual a visão que possuem dos programas que você selecionou.

Na escolha do orientador as recomendações são:

•O melhor indicador para um orientador (infelizmente não está disponível) é a proporção de alunos que concluíram a titulação em relação aos alunos que recebeu (descontado os que desistiram), no entanto um indicador indireto é a quantidade publicações recentes em revistas indexadas no Brasil e no exterior ou de prestígio (principalmente em conjunto com alunos). Muitas publicações em congressos nem sempre é um bom indicador, pois geralmente existe pouca exigência na aceitação das mesmas. No site do www.Cnpq.br procure pelo nome no Curriculum Lattes e você pode verificar os detalhes dos professores orientadores. Consulte os alunos orientados pelo professor.
•A diferença entre um graduado e um pesquisador é que para o primeiro é dado um problema para resolver e o segundo tem que definir o problema a ser resolvido, que é a parte criativa da pesquisa. Portanto, o bom orientador não é aquele que diz o que você deve fazer, mas que faz você pensar e escolher seus caminhos com suas próprias pernas. Nunca procure seu orientador para dizer “agora o que devo fazer”, pois você estará atrofiando sua capacidade criativa. Leve as alternativas e discuta as soluções, afinal a pesquisa é sua. O bom orientador é o que ajuda você tomar a decisão.

O tema de pesquisa é a fase crucial e você sempre terá dúvidas e o medo de encontrar uma pesquisa igual a sua já concluída, mas a dúvida faz parte do processo. Se você souber o resultado da sua pesquisa ela não necessita ser realizada. Evite misturar projeto específico com pesquisa. São comuns os seguintes erros:

•“Vou fazer uma pesquisa sobre a bacia do rio Central” Isto não é pesquisa, já que a simples análise de uma bacia não define objetivos e perguntas a serem respondidas sobre o tema. A bacia mencionada pode ser um estudo de caso de uma questão a ser demonstrada na pesquisa;
•“Vou fazer uma pesquisa sobre o modelo hidrológico X” Um modelo nunca é um objetivo, mas um meio. Ë possível desenvolver uma pesquisa que desenvolva um modelo para um determinado uso e caso, mas o modelo em si nunca será o objetivo.
•“Vou comparar os modelos A e B” Também não tem uma definição clara, já que a comparação entre os modelos tendem a resultados sem conclusão, apenas quando se tem um objetivo de uso bem, definido as características dos sistemas em estudo.

O tema de pesquisa geralmente vem de uma pergunta uma dúvida ou uma questão que está pouco resolvida. No futuro analisaremos as pesquisas potenciais em recursos hídricos.

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