Arquivo de Fevereiro de 2008

GASES DO EFEITO ESTUFA (GHG) EM RESERVATÓRIOS TROPICAIS

Nos últimos anos tem sido observada uma controvérsia sobre a quantificação da emissão de gases de efeito estufa (GHG) em reservatórios de regiões tropicais, principalmente para energia.
O gás metano (CH4) gerado pela implementação do reservatório pode ir para a atmosfera principalmente pela sua superfície (por difusão) ou quando atravessa as turbinas à jusante. O metano possui efeito de magnitude muito superior ao do Dióxido de Carbono CO2 quanto às mudanças climáticas. Alguns resultados de pesquisadores brasileiros, americanos e franceses em reservatórios da Amazônia brasileira e da Guiana apresentaram valores importantes. Existem questionamentos a estes resultados quanto ao seguinte: (a) metodologia de medidas; (b) representatividade dos resultados, já que os reservatórios escolhidos eram os de piores condições características, como Balbina (alto tempo para renovação do seu volume e grande área de inundação), próximo a Manaus. Estes dados foram utilizados para extrapolações o que pode levar a conclusões apressadas.
No final de 2006 foi realizada uma reunião em Paris onde se concluiu pela necessidade de mais pesquisas para entendimento dos processos e melhoria das estimativas de parâmetros e indicadores. No ano passado em outubro, foi realizado um workshop em Foz de Iguaçu com pesquisadores, representantes do setor energético, de governo. indústria, de entidades internacionais como Banco Mundial e Unesco.Neste evento foi criado um grupo de trabalho representativo (no qual fui indicado como coordenador) para preparar um relatório que defina um programa de pesquisa com vários atores nas regiões tropicais usando uma amostra representativa de reservatório, onde seriam realizadas medidas que permitissem avaliar o impacto dos mesmos quanto aos gases do efeito estufa.
O grupo produziu um relatório que foi consolidado e discutido em Paris no início de janeiro de 2008. Com base nesta discussão, o relatório atualizado foi submetido ao grupo de trabalho e aos participantes do evento e outros interessados para comentários até dia 5 de março de 2008 (veja como acessar ao relatório e fazer seus comentários). Depois de incorporadas as sugestões e finalizado o relatório, será apresenta uma proposta de desenvolvimento da pesquisa que será encaminhada a potenciais financiadores brasileiros, entidades internacionais e de empresas para desenvolvimento de um programa num período de 2 – 3 anos, tendo como base o seguinte: (a) critérios de medidas e representatividade temporal e espacial dos processos nos reservatórios; (b) indicadores dos reservatórios que permitam estimar os impactos: (c) modelos preditivos que permitam fazer as escolhas adequadas de novos empreendimentos e; (d) medidas de mitigação para os reservatórios existentes.
Estes resultados permitirão consolidar com base sólida o conhecimento sobre o assunto e a tomada de decisão sobre empreendimentos existentes e novos.

Relatório do grupo de trabalho entre em http://rhama.net/wgghgstatus.pdf
Formulário para comentários entre em http://rhama.net/comentsformsghg.xls

comentários para melack@mail.lifesci.ucsb.edu e cópia para: ah@hydropower.org and rmt@hydropower.org

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ENTREVISTA COM PROF. CIRILO SOBRE CTHIDRO

O prof. José Almir Cirilo é engenheiro Civil pela Universidade Federal de Pernambuco, Mestre e Doutor pela COPPE Universidade Federal do Rio de Janeiro). Atualmente é professor da Universidade Federal de Pernambuco, presidente do Comitê Gestor do CTHIDRO-Fundo Setorial de Recursos Hídricos do Ministério de Ciência e Tecnologia e Secretário Executivo de Recursos Hídricos do Estado de Pernambuco e ex-Presidente da ABRH.

Tucci: 1 : Depois de sete anos quais os principais resultados em inovação e pesquisadores obtidos pelo investimento do CThidro? Fez alguma diferença?

Cirilo: Está fazendo a diferença. No que se refere aos pesquisadores e aos grupos de pesquisa, lembremo-nos das dificuldades que viviam, por exemplo, os programas de pós-graduação, a dificuldade de dar suporte aos estudantes, tanto na questão de bolsas quanto no suporte dos experimentos. Hoje vemos em todo o país os grupos tocando muitas pesquisas, alunos envolvidos nos projetos. O primeiro resultado concreto que se vê é a formação de recursos humanos: em um momento importante da retomada dos investimentos do país no setor de recursos hídricos e de saneamento começamos a ter melhoria da mão de obra qualificada. No que se refere à inovação a resposta ainda é tímida: buscamos investir, por exemplo, no desenvolvimento de novos dispositivos de monitoramento, de dessalinização, mas precisamos aguardar os resultados. Acreditamos que esteja havendo um novo processo de transferência de tecnologia, como no caso de avanços nos instrumentos de gestão para os organismos gestores. Mas há muito a caminhar.

Tucci: 2 O CThidro quando foi criado tinha com um dos princípios de investir em demandas (pesquisas) do Estado que atendessem a sociedade e não de pesquisadores, evitando pulverizar recursos. Até que ponto isto tem sido aplicado nos investimentos?

Cirilo: Temos procurado ouvir os pesquisadores, fazendo prospecções, porém integrando nesse processo pessoas que tenham a visão do outro lado, daquilo que se espera que a ciência produza com retorno mais efetivo e imediato para a sociedade. Como você bem sabe, pois praticamente criou o CThidro, o início foi marcado por um investimento difuso, em função da demanda reprimida e da abrangência do tema: a questão da água permeia um grande leque de ciências e aplicações. Por outro lado, temos priorizado a pesquisa induzida, onde buscamos direcionar o rumo das ações para temas relevantes. Apenas dois entre muitos exemplos de indução: 1 - os diversos editais voltados à gestão, pela necessidade de aperfeiçoar os mecanismos e consolidar o setor dos recursos hídricos do país; 2 - as chamadas para assuntos essenciais, como os estudos para resolver o problema das cianobactérias nos reservatórios de abastecimento de água, um problema crônico em todo o mundo.

Tucci: 3 - Parte do semi-árido fica em Pernambuco. Quais os resultados possíveis de se obter no seu período de secretário, que façam a diferença para a população?

Cirilo: Se você se refere aos resultados que nos traz o CThidro, cito, em primeiro lugar, a formação de quadros. Nossas secretarias, no Nordeste e em todo o país, começam a ter bom número de mestres e doutores em recursos hídricos. Estamos contratando 37 engenheiros e boa parte deles tem pós-graduação na área. Em inovação, começamos a incorporar produtos importantes desenvolvidos com o apoio do Fundo, como ferramentas de Suporte à Decisão, avaliação de tecnologias alternativas relacionadas à captação de água de chuva, reuso das águas, dessalinização. Se por outro lado você se refere às nossas ações da Secretaria como um todo, aí somos muito ambiciosos, como pernambucanos que se prezam: estamos estruturando a universalização dos serviços de água e esgoto para todas as nossas cidades e principais aglomerados rurais, além da questão de água para o desenvolvimento do setor produtivo. Pernambuco começa a ter canteiros de obras hídricas por todo lado. Só que não é ação para um só governo: preparamos um plano de 12 anos para essa universalização, que inclui naturalmente a gestão dos empreendimentos, redução das perdas, revitalização de nossas bacias hidrográficas, participação social, etc. É um esforço enorme para mudar o quadro de décadas de sofrimento da população, principalmente a que reside no semi-árido.

Tucci: 4 - Presidente do comitê do CThidro, secretário de governo e nas horas vagas professor. Você inventou o multi-processador pessoal?

Cirilo: Às vezes bate um cansaço danado, mas tento fazer tudo com muito entusiasmo. Os 10 “desorientados” de doutorado que ainda tenho reclamam à beça pelo pouco tempo que disponho para eles; assim, quando tenho que ir ao sertão do São Francisco para acompanhar as ações do governo se possível levo junto alunos, da graduação, de mestrado, de doutorado (neste último final de semana de janeiro estive com eles no canteiro de obras da transposição do São Francisco, naturalmente promovendo as devidas discussões que o tema requer). Uma forma de agir é buscar integrar tudo: juntar um congresso do semi-árido de diversos países com oficinas de avaliação dos projetos do CThidro, levar até lá os membros dos comitês de bacia, os alunos da universidade, os técnicos da secretaria, gestores de recursos hídricos da região, etc. Tudo vai gerando integração e espero que renda bons frutos.

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INCERTEZAS DEVIDO AS SÉRIES HIDROLÓGICAS

A Hidrologia utilizada na gestão de recursos hídricos adota um princípio bastante discutível. Este princípio é de que no futuro se repetirá a série do passado ou pelo menos as suas estatísticas (média, desvio padrão, etc) sem mantém. Quando é projetada uma barragem, o volume de projeto é determinado com base neste princípio, da mesma forma que um dique ou mesmo a energia assegurada, no caso de hidrelétricas.
A Incerteza é a diferença entre a amostra das estatísticas de uma série e as estatísticas da população (todas as possíveis ocorrências). Quando esta diferença é muito importante o projeto ou o planejamento pode estar sub-dimensionado ou super-dimensionado. As incertezas são resultado do seguinte (veja a discussão deste tema na entrevista com o prof. Clarke):

(a) séries hidrológicas pouco representativas, que possuem poucos anos e não retratam o que vai ocorrer no futuro. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, a série de 1952 -2007, apesar de ter 56 anos é tendenciosa porque não considera o período de 1942 a 1951, que teve a maior seca dos últimos 90 anos (que poderá ocorrer no futuro). Um reservatório dimensionado com a série que englobe a década de 40 possui o dobro do volume que o dimensionado com a série tendenciosa;
(b) Efeito do uso do solo ou mudança climática. Estes efeitos alteram as estatísticas da série com o tempo, na medida que estes efeitos ocorrem. Por exemplo, uma bacia que teve grande desmatamento, alteração do uso do solo, aumento da retirada de água da bacia, etc; a vazão se modifica com o tempo e a série não é estacionária (estatísticas que não variam com o tempo). O mesmo ocorre com uma bacia devido à urbanização. Para o futuro deverá perdurar o cenário da bacia desmatada, que não é o mesmo do passado, ou se houve mudança climática.
Devido as grandes alterações que ocorrem na área rural e urbana, o aumento da incerteza dos projetos hídricos está aumentando com custos para a sociedade em prejuízos ou em obras mais caras, geralmente os primeiros.
Como este problema pode ser mitigado? Por meio da revisão dos projetos, que custa caro ou pelo uso de previsão de vazão, assunto que vou abordar no futuro aqui.

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RESÍDUO SÓLIDO NA DRENAGEM URBANA

O resíduo sólido gerado pela população é contabilizado pela soma da quantidade coletada das casas e da limpeza urbana. Nesta equação falta um termo de difícil quantificação, que é o resíduo que fica depositado nas ruas, passeios e terrenos. Este resíduo acaba sendo levado pela água da chuva para o sistema de drenagem, entupindo os condutos e canais e proporcionando um visual deprimente nos rios urbanos (capa de Zero Hora de Porto Alegre no verão passado) ou como a figura abaixo.
A quantidade do resíduo que acaba na drenagem depende da eficiência com que a coleta nas casas (a média brasileira é de 0,74 kg/pessoa/dia) e a limpeza das ruas são realizadas e na educação das pessoas, evitando jogar no espaço público os resíduos. Os valores variam muito. Para os condutos este volume tende a ser acumulativo na drenagem, reduzindo a capacidade de escoamento dos canais. As cidades tendem a fechar seus condutos e canais (dificultando a limpeza) para facilitar os veículos e esconder este problema. Com a acumulação de resíduos, os condutos deixam de funcionar ao longo do tempo (análogo a circulação sanguínea que é entupida por depósitos de gordura) devido a falta de manutenção, a conseqüência direta é o aumento a freqüência da inundação na drenagem.
Os resíduos podem ser quantificados em volume ou peso. Alguns dados encontrados na literatura mostram que podem variar de 3 a 68 kg/hectar/ano dependendo dos fatores acima e do tipo de ocupação (comercial, industrial e residencial). Observa-se que nas vias de maior movimento e freqüência de pessoas a tendência é de aumentar.
Em pesquisa recente de doutorado sob minha orientação no IPH, Marllus Neves monitorou 8 meses a quantidade de resíduo que chegou na detenção do Parque Marinha do Brasil em Porto Alegre e estimou o total de resíduos que entrou nos condutos depois da limpeza urbana. A bacia ocupada (com população) tem da ordem de 1km2, com declividades altas, rede separadora, coleta e limpeza urbana consideradas eficiente. O total estimado que entrou na drenagem no período foi de 940 kg, e na detenção chegaram 288 kg, representando 30,6 % do que entrou. Observou-se que papel e plástico representaram na entrada da drenagem, respectivamente 39,1 e 42,1 % (soma de 81,2%) do total, mas na saída o papel representou apenas 0,8 % e o plástico 81,8%. Observa-se assim que a parcela de papel retido e diluído (provável) é de 38,9 % do total que entrou. Portanto fica retido, entupindo os encanamentos 30,5 % do total que entra (geralmente plástico).
As duas principais lições retiradas desta pesquisa são: (1) o plástico representa uma parcela superior a 80% e necessita de medidas preventivas como as adotadas em muitas cidades do mundo em restringir o uso do mesmo; (2) a limpeza urbana antes da chegada da chuva pode reduzir significativamente o total que chega na drenagem. Com a previsão meteorológica disponível basta o departamento de limpeza urbana utilizar a informação para programar a limpeza.

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Resíduo sólido na drenagem em Jaboatão - Pernambuco

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