Arquivo de Abril de 2008

GERAÇÃO DE ENERGIA DE UMA PCH

A estimativa da produção energética de uma PCH Pequena Central Hidrelétrica depende da avaliação da disponibilidade hídrica da bacia hidrográfica. Na prática atual existem importantes incertezas que devem ser consideradas:

1.Estimativa das vazões - Como é esperado as bacias nas quais são definidas as PCHs são pequenas, com área de drenagem geralmente inferiores ou da ordem de 100 km2. A rede de postos fluviométricos brasileira é reduzida ou quase inexistente para bacias desta magnitude. A prática hidrológica tem utilizado da proporção de áreas de drenagem para extrapolação as vazões de bacias maiores para as menores. As conseqüências são as seguintes:

(a)não existe proporcionalidade de áreas de drenagem na curva de permanência, principalmente no trecho inferior. Podem existir resultados tanto num sentido como no outro, mas a tendência é que a vazão regularizada obtida no cálculo seja superior a real, podendo superestimar a real geração;
(b)a precipitação de cada bacia pode mudar, portanto ao extrapolar somente pela área, a chuva não é considerada. Em regiões montanhosas (como a Serra do Mar) a chuva tende a aumentar de jusante para montante. A bacia maior tenderia a ter vazão específica menor e a extrapolação subestimaria a vazão no local de interesse;
(c)a geologia e a morfologia das bacias pode mudar e o comportamento nas estiagens podem ser muito diferente. Na cabeceira de alguns rios podem existir pequenos planaltos que regularizam mais a vazão.

2.Representatividade da série: Sabe-se que em grande parte do Brasil: Sul, Sudeste, Centro- Oeste e Sul da Amazônia a chuva e a vazão aumentaram depois de 1970 da ordem de 30%. Utilizando este período, a tendência será de obter mais geração, se comparado com uma série mais longa (englobando anos anteriores a década de 70). Esta não – estacionalidade tem sido discutia em outros artigos neste blog. A pergunta inevitável é ? será que o futuro se comportará como os últimos 30 anos? Está incerteza está hoje embutida nestas avaliações.

Qual é a fórmula para minimizar estes problemas?

No primeiro caso, o uso da regionalização por proporção de área para estimativa da vazão de uma PCH pode produzir erros importantes. Em artigos publicados anos atrás (Silveira, G; Tucci, C.; 1998. Monitoramento de pequenas bacias para disponibilidade hídrica, RNRH V3 N3.p 97-110 e Silveira, G; Tucci, C. e Silveira, A. 1998. Quantificação de vazão em pequenas bacias sem dados. RBRH V3 N3 p111-131) mostramos que a medição local de vazão por períodos muito curtos é melhor que qualquer regionalização. Os procedimentos recomendados seriam:
•Pelo menos uma semana de medidas espaçadas por 2dias permite estimar o coeficiente de depleção da bacia, essencial para melhor estimar as vazões de estiagem.
•O uso de um modelo chuva-vazão permite com base na chuva, gerar a vazão por vários anos. Nesta geração podem ser utilizados conceitos de incertezas para se obter séries de vazões igualmente prováveis;
•A comparação com valores regionais permite uma avaliação dos valores gerados.

Nos estudos de regionalização que desenvolvemos no passado (ver livro: Regionalização de vazões, publicado pela ABRH) mostrei que a existência de poucos dados no local é melhor que qualquer metodologia de regionalização.

No segundo caso, a representatividade da série não deve ser medida pelo número de anos da série, mas pela sua representatividade. Desejamos saber qual o período do passado que melhor explica o futuro. A primeira pergunta que devemos fazer é a seguinte: A bacia hidrográfica sofreu alterações no seu tipo e uso do solo que justifiquem as mudanças de vazões ou as alterações foram pequenas e as vazões mudaram principalmente pelo aumento de chuva? No caso que a não-estacionalidade é essencialmente devido a variação da chuva, a série longa é a mais representativa e pode-se analisar a produção de energia ponderando a probabilidade de ocorrência de períodos de vazões. No caso, em que existe efeito do uso do solo, Pode-se buscar retirar incluir este efeito e, um modelo precipitação – vazão. Este conteúdo ainda é novo na hidrologia, mas necessita ser abordado para dar consistência aos projetos.

A consequência econômica destas incertezas ocorrerá na comercialização da energia. Ao vender um contrato de longo prazo de energia firme o proprietário da Usina poderá, num período de escassez ter que comprar energia no mercado para honrar seu contrato, caso sua PCH não fornecer a energia prevista. Neste momento o preço deve ser alto, levando a prejuízos no investimento. No caso das vazões estimadas estarem subdimensionadas o proprietário poderá perder de aumentar seu retorno do projeto. Portanto, a correta avaliação da capacidade de geração é de interesse também do investidor.

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AVALIAÇÃO AMBIENTAL INTEGRADA E ESTRATÉGICA

O processo de licenciamento ambiental nasceu dentro do escopo das leis ambientais, com o objetivo de controlar e minimizar os impactos sobre os ecossistemas. Este processo se baseia na avaliação ambiental, que é realizada por meio do chamado EIA – RIMA, sigla de Estudos de Impactos e Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental, respectivamente. O primeiro é abrangente e deve contemplar todos os aspectos técnicos e o segundo deve traduzir os elementos técnicos em linguagem para a população, permitindo a sua participação nas sessões públicas. Este tipo de documento orienta as diferentes licenças quanto a viabilidade do empreendimento na Licença prévia, início da construção e depois a operação com a licença de operação. Este figurino ainda pode ser complementado por documentos e estudos específicos que subsidiem nas diferentes fases de um empreendimento.
Com o acelerado desenvolvimento observou-se que a avaliação de projetos individuais não capta o efeito sinérgico do conjunto dos empreendimentos e, mesmo visto isoladamente, os projetos podem apresentar soluções que num conjunto são inadequadas. Por exemplo, um projeto de controle de cheias numa cidade pode mudar de forma significativa se não existe tratamento de esgoto na mesma área. Um conjunto de reservatórios pode produzir impactos que isoladamente não aparecem. Além disso, não existe planejamento ambiental, pois os projetos individuais são de motivações de interessados e não do gestor do sistema.
Para contemplar este tipo de problema foram propostos os estudos de Avaliação Ambiental Integrada, que devem ser integrados dentro de uma visão espacial e/ou setorial ou ainda intersetorial. Este tipo de avaliação deve permitir avaliar os efeitos que se interagem dentro do recorte identificado. Por exemplo, numa bacia hidrográfica existem usos da água e previstos novos empreendimentos de energia, irrigação, navegação, etc. Como este conjunto de empreendimentos impactam o ambiente, nos seus principais ecossistemas: terrestre, aquático e sócio-econômico? Em 2005 os Ministérios do Meio Ambiente e Energia preparam um termo de referência sobre Avaliação Ambiental Integrada para a bacia do rio Uruguai que foi implementado pela EPE Empresa de Pesquisa Energética com vistas aos novos empreendimentos da bacia. O TR também foi utilizado para outras bacias. Em 2006 ministrei um curso de AAI em três turmas em Brasília para o MMA (O texto está para donwload no site: http://rhama.net/aaib.zip ).
Como a Avaliação Ambiental Estratégica entra neste sistema? Veja que na descrição da AAI acima não é tomada decisão, apenas são realizadas avaliações e recomendações. A avaliação ambiental estratégica envolve a tomada de decisão em função dos elementos da AAI. Esta parte é sensível, pois nem sempre fica claro quem tem o poder da decisão, o como isto será feito. Por exemplo, numa bacia com vários empreendimentos existem os impactos mais diversos, o processo de decisão pode utilizar as diferentes técnicas disponíveis, mas por quem e como? O razoável seria buscar dar equilíbrio na decisão, de que se buscassem os menores impactos e as compensações pagassem pela preservação de outras áreas dentro da mesma bacia ou região. Para isto deveriam existir fundos de compensações ambientais e sistemas de seguros obrigatórios. Observa-se que existe um vácuo a ser preenchido no processo decisório na busca de mecanismos econômicos e sociais para dar sustentabilidade ambiental. Apresentei um exemplo deste tipo de encaminhamento neste blog em outubro passado, tratando como os mananciais urbanos poderiam ser sustentados por compensações econômicas.

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RISCOS DA DISPONIBILIDADE DE ÁGUA NA PRODUÇÃO DE ENERGIA

Depois de 2001, os decisores e a população entenderam os riscos da falta de água para produção de energia. Apesar do setor elétrico brasileiro possuir da ordem de 70% de capacidade instalada hídrica para 30% térmica e outros, o setor opera geralmente da ordem de 93% com hídricas e somente o restante com as demais instalações devido a preço reduzido da geração hídrica.
O risco de falha do setor foi adotado em 5% com dois anos e meio de período crítico em função da capacidade instalada e dos volumes de regularização. No entanto, vários fatores se alteraram nos últimos anos produzindo diferentes efeitos sobre a capacidade de regularização do setor e seu efetivo risco.
No lado positivo, as vazões afluentes aos reservatórios na bacia do rio Paraná, Uruguai e Paraguai aumentaram da ordem de 30%, aumentando o fator de capacidade dos empreendimentos para o mesmo investimento. Esta questão tem sido discutida em outros artigos neste blog, onde a principal pergunta se resume em: até que ponto estes aumentos são permanentes?
No lado negativo se observou que o número de empreendimentos num período longo foi insuficiente para acompanhar a demanda, culminando no racionamento de 2001, que poderia ter acontecido antes se não houvesse o aumento das vazões.
Nos últimos anos houve um outro fator, representado pelo maior aumento da capacidade instalada sem o correspondente volume de regularização, fazendo com que diminua o período de risco e aumente a probabilidade de falha, pois existe menor volume específico para cada MW instalado (figura abaixo). Numa cascata de reservatórios geralmente existem poucos reservatórios de regularizam a vazão e vários de queda, que utilizam a mesma vazão. Como os reservatórios de regularização não são construídos por serem menos atrativos (maior custo ambiental e maiores conflitos, sem retorno equivalente) são construídos os de queda. Quando ocorrer uma estiagem toda a capacidade da cascata estará comprometida, existindo pouca ou nenhuma sinergia entre os mesmos.
Na figura abaixo se observa que a relação entre volume e capacidade instalada média subiu para cerca de 8 hm3/MW (hm3= 106 m3) nos anos 60 com a entrada de Três Marias Furnas, etc, caindo gradualmente até valores atuais de 3,5 hm3/MW. Como estes valores são médios não caracterizam cada conjunto de empreendimentos, como o reservatório equivalente de cada setor, mas permitem uma tendência geral
Portanto, as condições de risco podem passar a serem anuais, devido a baixa regularização, ficando o setor sujeito a riscos mais freqüentes, como tem sido observado nestes dois últimos anos, onde os reservatórios estavam cheios e passados alguns meses chegou-se a níveis alarmantes. Isto resultará num mercado “spot “mais volátil e arriscado para os compradores de energia.

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figura preparada por Márcio Nóbrega

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ENTREVISTA COM DR. LUÍS MOLION SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Luiz Carlos B. Molion é físico pela IFUSP (1969), PhD em Meteorologia pela Universidade de Wisconsin, USA, (1975), Pós-doutor em Hidrologia de Florestas pelo Instituto de Hidrologia (IH), Wallingford, UK, (1982) e “fellow” do Wissenschftskolleg zu Berlin, DBR (1990). É Pesquisador Sênior aposentado do INPE, onde exerceu o cargo de Diretor de Ciências Espaciais e Atmosféricas e coordenou experimentos na Amazônia da década de 1980, em colaboração com o IH e NASA. Atualmente, é professor e está Diretor do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas. Além de Dinâmica de Clima, ele desenvolve pesquisas nas áreas de desenvolvimento duradouro, dessalinização de água e energias renováveis, incluíndo biodiesel de palmáceas nativas. Também é conhecido por contestar a visão apresentada pelo IPCC sobre mudanças climáticas.

Tucci: 1 - Existe uma predominância de opiniões (IPCC e de vários pesquisadores) de que as mudanças climáticas estão ocorrendo devido a emissão de CO2 para atmosfera. Você tem contestado esta visão, quais são seus argumentos?

Molion: Entre os anos 800 e 1200 DC, há registros históricos e de testemunhos climáticos que a Terra esteve mais aquecida do que hoje, a ponto de a Groelândia (Terra Verde) ter sido colonizada pelos Vikings, que lá praticaram agricultura. As concentrações de CO2, estima-se, teriam sido 30% mais baixas que a atual. Hoje, em pleno “aquecimento global”, e com a maior concentração de CO2 dos últimos 650 mil anos (IPCC, 2007), a Groelândia está coberta de gelo (?!). Num passado mais recente, entre 1925-1946, ocorreu um aquecimento global, que correspondeu a 60% do aquecimento “observado” nos últimos 150 anos, incluindo o derretimento do gelo do Ártico. Paradoxalmente, antes do término da Segunda Guerra Mundial, o homem emitia para a atmosfera apenas 6% do carbono que emite hoje. Portanto, esse aquecimento deve ter sido natural e não pode ser atribuído ao CO2, cuja concentração era cerca de 20% inferior à atual. Logo após, entre 1947-1976, ocorreu um desenvolvimento econômico acelerado, com um aumento significativo do consumo de combustíveis fósseis e emissões. Porém, embora a concentração de CO2 continuasse aumentando, o globo esfriou. Eu estava fazendo meu doutorado nos EEUU na primeira metade da década de 1970 e tive o privilégio de ouvir as discussões e o “consenso científico” que uma nova era glacial se estabeleceria nas próximas décadas. Aí, surgiu o aquecimento pós-1977, e o “consenso” se inverteu! A temperatura global mais alta ocorreu em 1998, coincidente com o evento El Niño, tido como o mais forte do século passado. De lá para cá, as temperaturas globais têm sido mais baixas, particularmente neste último inverno. Entretanto, a concentração de CO2 continuou a aumentar. O coeficiente de correlação entre as séries de temperatura do ar e da concentração de CO2 é inferior a 0,1, mais um indicativo de que o CO2 não seja responsável pelo aumento de temperatura. Em adição, sabe-se que a solubilidade de um gás em um líquido é função inversa de sua temperatura. Ou seja, oceanos mais quentes absorvem menos, ou liberam mais, CO2, já que os oceanos são um reservatório de carbono 60 vezes maior que o atmosférico. Os oceanos tropicais, particularmente o Pacífico, ficaram mais aquecidos entre 1977 e 1998, quando ocorreram vários eventos El Niño intensos (1979/80, 1982/83,1986/87,1992/93 e 1997/98). Assim, é possível que o aumento de CO2 atmosférico seja decorrente do aquecimento dos oceanos. Finalmente, os resultados das análises dos cilindros de gelo de Vostok, sugeriram que as temperaturas dos interglaciais de 130 mil, 250 mil e 350 mil anos atrás foram mais elevadas que às do atual interglacial, porém as concentrações de CO2 foram 20% inferiores à atual (Leia mais: AGW JAN-2008_V2).

Tucci: 2 Em 1990 quando fizemos um estudo sobre mudança climática sobre o rio Uruguai para a EPA e universidades Americanas, lembro que você contestava que a Terra não estava esquentando, mas esfriando. Você continua afirmando isto, mas o que se observou nestes últimos 17 anos é de aumento da temperatura em grande parte do globo. Como ficam suas previsões com base nesta evidência?

Molion No início da década de 1990, meu argumento principal é que havia uma série muita curta (12 a 13 anos) para caracterizar uma “tendência de aquecimento” de longo prazo e que tinha ocorrido um aquecimento entre 1925-1946, que não podia ser atribuído ao CO2. Como há evidências que, no último milhão de anos, a Terra passou por 9 eras glaciais, que duraram cerca de 100 mil anos cada, ou seja, 90% do tempo o clima tinha estado mais frio que o atual, argumentei que seria mais plausível esperar que o clima se resfriasse em um prazo mais longo. É verdade que a temperatura continuou a subir na década de 1990, mas a magnitude desse último aquecimento é questionável, uma vez que, por exemplo, o número de estações meteorológicas de superfície continental (termômetros) diminui sensivelmente, de cerca de 14 mil nos anos 1960 para menos de 2 mil atualmente. Essa redução foi mais significativa na Rússia (Sibéria), que apresenta temperaturas mais baixas em média, e nas zonas rurais. Os termômetros de zonas urbanas sofrem o “efeito de ilha de calor”. Ou seja, a energia (calor) solar é repartida entre os processos de evapo(transpi)ração e aquecimento do ar. Nas cidades, devido à impermeabilidade da superfície, praticamente não há água para evaporar. Assim, a maior parte do calor solar é utilizada para aquecer o ar e os termômetros urbanos registram temperaturas 3 a 5 ºC mais elevadas que às da zona rural, em média. Por sua vez, dados de temperatura obtidos por satélites (MSU/UAH), não mostraram tendências de forte aquecimento da troposfera nos últimos 30 anos. Dez anos atrás (1997) foi publicado o primeiro trabalho sobre a Oscilação Decadal do Pacífico (ODP), que é uma oscilação de baixa freqüência da temperatura de sua superfície, com fases quente e fria, semelhante ao fenômeno El Niño/La Niña, porém, com duração de cerca de 20 a 30 anos para cada fase, num ciclo total de 50 a 60 anos. Chamou minha atenção uma enorme coincidência entre as duas fases quentes da ODP (1925-1946 e 1977-1998) e aquecimento global simultâneo e entre sua fase fria (1947-1976) e resfriamento global ocorrido, resfriamento esse em que CO2 estava aumentando rapidamente, não explicado pelo IPCC. Como o Pacífico ocupa 35% da superfície terrestre e a atmosfera é aquecida por debaixo, sugeri a hipótese de trabalho que a ODP poderia ser um controlador do sistema climático mais significativo do que lhe havia sido atribuído até então. A nova fase fria da ODP parece ter iniciado em 1999 e presumo que deva durar cerca de 20 a 30 anos como a anterior. Portanto, minha previsão é que ocorra um resfriamento global nessas próximas duas décadas, até o ano 2030, aproximadamente. No que concerne aos recursos hídricos, aquecimento global é melhor que resfriamento. Na Argentina, Barros e colaboradores, em 1996, analisaram dados de 8 postos e mostraram que os totais pluviométricos médios anuais aumentaram de cerca de 850 mm/ano para 1150 mm/ano (aumento de 35%) a partir principalmente do início dos anos 1970. Você e teus colaboradores analisaram os dados de vazão de 20 postos e de precipitação de 36 postos, localizados na bacia do Rio Paraguai, em território brasileiro, bem como uma série de 95 anos de dados de nível desse rio, em Ladário, e mostraram que a bacia apresentou um regime hidrológico distinto a partir de meados dos anos 1970, com aumento significativo das cotas. Uma explicação para esse aumento de cotas seria o aumento da precipitação,. Nesse mesmo trabalho, vocês afirmaram que, no período anterior a 1970, as estiagens (dias consecutivos sem chuva) foram mais longas e que, nos dias de chuva, a precipitação média foi inferior ao período pós-1970. Você, Tucci, em um dos teus Relatório (ANA, 2002) notou que as vazões do Rio Paranapanema, em Rosana, e as do Rio Paraná, em Corrientes, sofreram incrementos de 46,2% e 27,8%, respectivamente, após o início dos anos 1970. Você atribuiu parte desses incrementos ao aumento de 15% a 17% nos totais pluviométricos sobre as bacias. A outra parte teria sido devido à mudança de uso dos solos. Em síntese, na fase fria da ODP (1947-1976), houve redução de precipitação e vazão e na fase quente (1977-1998), ocorreu o oposto. A nova fase fria da ODP (1999-2030??) poderá gerar um clima semelhante à fase fria anterior. E teremos problemas na geração de energia elétrica e na agricultura.

Tucci 3. O Grupo I do IPCC analisa os mecanismos de forçante climática externa (por ex. variabilidade solar, raios cósmicos). A conclusão do IPCC é que esses efeitos são significativos e explicam grande parte da variabilidade climática observada no passado. Entretanto, o IPCC concluiu que o aumento da forçante radiativa associada aos gases de efeito estufa de origem antrópica (homem) é hoje maior que a forçante natural. Em sua opinião, o IPCC deixou de avaliar importantes contribuições sobre este tema, quais são? Foram publicadas e avaliadas pela comunidade científica?

Molion O IPCC considerou o forçamento radiativo do CO2 14 vezes mais potente que o da irradiância solar total (IST) e não tenha dúvida que subestimou o impacto da atividade solar no clima. As variações da temperatura do planeta estão relacionadas não só aos ciclos solares de longo prazo, como os ciclos de 11 (manchas solares), 22 (reversão do campo magnético), 90 (Gleissberg), 180 (Mínimo de Dalton) anos ou mais, mas também às flutuações de curto período da IST. Existem vários artigos que exemplificaram o primeiro aspecto, como, por exemplo, o Mínimo de Maunder estar relacionado com a Pequena Era Glacial entre os anos 1400 e 1850; as temperaturas baixas no início do século passado, coincidindo com o Mínimo do Ciclo de Gleissberg; e o aquecimento global na primeira metade do século passado, simultâneo ao aumento da atividade solar que culminou em 1957/58. Locwood e Stamper (1999) estimaram que a variação da IST poderia ter sido responsável por 52% da variação da temperatura entre 1910 e 1960. Shaviv (2005), combinando fluxo de raios cósmicos galácticos (RCG) com variações da IST, conclui que o Sol pode ter causado 77% da variação da temperatura nos últimos 100 anos. A correlação (r2) entre a série de 120 anos da temperatura dos EEUU e a IST foi igual a 0,59 e a 0,64 com a IST adiantada de 3 anos. Com relação ao segundo aspecto, Scafetta e West (2008) afirmaram que o Sol pode ter sido responsável por 69% da variação da temperatura do planeta, dependendo de como a IST é reconstruída. Além da IST, existem outros processos solares que podem interferir no clima indiretamente. É possível, por exemplo, que variações no campo magnético solar interfiram no fluxo de raios cósmicos galácticos (RCG). Sol mais quieto, como no presente momento, apresenta um campo magnético fraco e permite entrada de um fluxo maior de RCG no sistema solar. A hipótese de Svensmark, por exemplo, diz que os RCG funcionariam como núcleos de condensação, aumentando a cobertura de nuvens baixas, refletindo mais radiação solar de volta para o espaço e resfriando o planeta. Explosões solares energéticas (fáculas) podem aumentar o fluxo da radiação ultravioleta (UV) em mais de 15%. A UV é absorvida na formação do ozônio na estratosfera, que se aquece devido a essa absorção. Esse calor se propaga para baixo e interage com a dinâmica da troposfera. O nosso conhecimento sobre a dinâmica solar é muito parco e não é possível atualmente precisar seu impacto no clima terrestre. Basta dizer que as observações da IST por satélites começaram em 1978, menos de 3 ciclos de manchas solares, e nenhum único sensor conseguiu sobreviver desde o início das observações, dificultando o tratamento e interpretação dos dados obtidos. A variabilidade da IST entre um máximo e um mínimo do Ciclo de Gleissberg, por exemplo, pode ser maior que os 4 Wm -2, que o IPCC afirma ser o forçamento radiativo dos gases de efeito-estufa e que elevaria a temperatura global entre 2° e 4,5°C.

Tucci 4. No filme ” The Great Climate Change Swindle” ( “A grande trapaça das mudanças globais”, http://www.channel4.com/science/microsites/G/great_global_warming_swindle/index.html, somente em inglês) é citado que a Terra está efetivamente aquecendo, mas devido às atividades solares e não devido a emissão de CO2. O que diferencia dos seus argumentos?

Molion Nesse filme, os pesquisadores dão ênfase à atividade solar, porém não descartam outros processos internos e externos ao sistema climático da Terra. Meus argumentos não diferem significativamente do que foi exposto no filme. Certamente, o Sol é a principal fonte de energia para todos os processos físicos, químicos, biológicos que ocorrem no planeta e a variabilidade do fluxo solar impõem mudanças no clima. Eu argumento que, além do Sol, existem outros controladores climáticos que podem, regionalmente, amplificar ou reduzir a variabilidade climática provocada pelo Sol. Por exemplo, o aquecimento entre 1925-1946 - quando os EEUU continental, por exemplo, tiveram as temperaturas mais altas de seus 120 anos de registros - teria ocorrido devido ao aumento da atividade solar e à baixa atividade vulcânica, que reduziu a concentração de aerossóis estratosféricos e aumentou a transmissividade atmosférica, permitindo maior entrada de radiação solar no sistema terra-oceano-atmosfera. O aquecimento de 1977 a 1998 coincide com um período em que o Oceano Pacífico Tropical esteve mais aquecido, fase quente da ODP, com uma freqüência maior de eventos El Niño, É sabido que El Niños aquecem o planeta. Entretanto, o ligeiro resfriamento global registrado entre 1947-1976, quando o Sol estava em seu máximo (máximo solar dos últimos 300 anos foi em 1957/1958), pode ter acontecido devido ao resfriamento do Pacífico Tropical (fase fria da ODP), por exemplo. E, certamente, a mudança brusca que ocorreu no Pacífico em 1976 não pode ser explicada pela atividade solar, cujo impacto nos oceanos é lento e gradual dada sua inércia térmica. Deve ter havido outra causa geofísica, como mudança na circulação oceânica profunda ou mesmo atividade sísmica submarina, liberando imensas quantidades de calor no fundo dos oceanos. Só como curiosidade, convém lembrar que a Guatemala sofreu um violento terremoto em fevereiro de 1976, que matou mais de 20 mil pessoas. A nossa ignorância sobre influência desses fenômenos no clima ainda é muito grande! Ou seja, o sistema climático da Terra é muito complexo e não depende apenas da atividade solar, embora o fluxo solar absorvido no planeta seja a causa mais importante indubitavelmente. Sem medo de exagerar, eu diria que o clima da Terra depende de tudo que ocorre no planeta, acima e abaixo da crosta terrestre, e no Universo.

Tucci 5. Como você explica que as previsões dos modelos estão erradas? Eles conseguem representar o cenário atual e depois o futuro de forma adequada?

Molion Os modelos de clima global (MCG) comumente têm dificuldade em reproduzir as características principais do clima atual, tais como temperatura média global, diferença de temperatura entre equador e pólo, a intensidade e posicionamento das altas subtropicais e das correntes de jato, se não for feito o que é chamado de “sintonia” ou “ajustes”. A resolução espacial dos modelos globais modernos está entre 100km e 250km e todos os processos físicos, diretos ou de realimentação (“feedback”), que se desenvolvem em escalas espaciais muito inferiores a essas, precisam ser resolvidos de uma forma particular, precisam ser “parametrizados”. A parametrização é, em geral, feita com algoritmos físico-estatísticos que dependem da intuição física do modelador e, portanto, podem não representar a realidade do processo físico e serem questionáveis. Dentre os processos mal-simulados nos MCG está o ciclo hidrológico, em particular, formação, desenvolvimento, cobertura de nuvens - que são fundamentais para o balanço radiativo do Planeta - e a precipitação/evapotranspiração, que atuam como termostato da superfície, regulando sua temperatura. Você próprio, em um trabalho com Damiani, em 1994, documentou a discrepância entre modelos com relação à precipitação para a bacia do Rio Uruguai. O transporte de calor sensível pelas correntes oceânicas para regiões fora dos trópicos também é outro processo físico parametrizado, e mal-resolvido. Foi observado que a Corrente do Golfo do México – corrente marinha que transporta calor para o Atlântico Norte, região da Inglaterra, Escandinávia, Groelândia e Ártico – voltou a ficar mais ativa na metade da década de 1990. Com maior transporte de calor sensível, as temperaturas da superfície do mar (TSM) aumentaram. Nessas circunstâncias, os ventos de oeste, em contato com as TSM aquecidas, retiram mais calor do Atlântico Norte e o transportam para a Europa Ocidental - onde está a maior fração dos termômetros utilizados para elaborar a “média global” - que, por conseguinte, apresenta uma mudança climática, um aquecimento local e não global! Em adição, como o efeito-estufa é fraco nessas regiões, devido à baixa concentração de vapor d’água, a emissão de radiação de onda longa para o espaço exterior para o espaço é maior, e o sistema climático terrestre perde mais energia para o espaço exterior (ROL). Em 2006, utilizando dados de Reanálises (NCEP), mostrei que, atualmente, a Escandinávia está perdendo, em média, 20 Wm-2 a mais por emissão de ROL do que perdia há 50 anos. Isso não ocorreria se o CO2 fosse o principal gás de efeito-estufa. Esse seria mais um mecanismo físico de controle do clima global, ou seja, o excesso de calor dos trópicos seria transportado para os pólos pelas correntes marinhas e, de lá, emitido para o espaço por ROL, reduzindo a temperatura global.

Tucci 6. Os argumentos contrários ao atual “main stream” geralmente são atribuídos ao lobby dos grandes poluidores. O quanto das contestações podem ter este caráter?

Molion Em primeiro lugar, é importante ressaltar que o IPCC e seus seguidores não comprovaram que o aquecimento global seja antropogênico (AGA). Afirmações com terminologia do tipo “é muito provável (very likely)” não têm caráter científico e os argumentos associados não resistem à uma analise científica séria. Argumentos contrários não necessariamente viriam dos “grandes poluidores”. Muitos cientistas não concordam com o AGA. Mas boa parte deles não se declara contrária, por ter medo de sofrer retaliações, perder o emprego ou ter recursos de projeto cortados ou negados. Portanto, eu inverteria a questão e perguntaria a “quem interessa o AGA”, já que não existe base científica sólida que comprove sua existência? É difícil responder essa questão atualmente. Já levantaram hipótese que o interesse seria dos países desenvolvidos (G7) na tentativa de desacelerar, ou mesmo inibir, o desenvolvimento de países emergentes, como Brasil China e Índia, a velha teoria Malthusiana sendo ressuscitada! A quem diga que seriam as próprias companhias de petróleo, uma vez que o ouro negro deva se exaurir dentro dos próximos 20 anos, talvez, e sua redução de consumo não só prolongaria seu domínio como permitiria aumentar seu preço. Note que o preço já passou dos US$110 por barril. Políticos e administradores podem estar vendo no AGA uma possibilidade de criarem mais impostos ou mesmo de se destacarem nos cenários de seus países e/ou mundial. O AGA pode interessar, também, para alguns pesquisadores manterem suas posições e recursos para projetos. Convém lembrar, por exemplo, que Dr.James Hansen, do GISS/NASA, foi um defensor da iminente era glacial no início da década de 1970 e hoje é um dos maiores defensores do AGA. Uma coisa é certa, não se “combate” a intensificação do efeito-estufa e o AGA com medidas inúteis, como o Protocolo de Kyoto, por exemplo. Os fluxos naturais de carbono entre os oceanos, vegetação e solos e a atmosfera foram estimados em cerca de 200 bilhões de toneladas de carbono por ano (GtC/a). Um erro de 10% nessa estimativa corresponde a 20GtC/a, ou seja, 3 vezes maior que as emissões humanas e cerca de 70 vezes maior que a redução proposta por Kyoto. Em adição, o CO2 não é um “poluente”, com tendo sido propalado na mídia, criando confusão na opinião pública. Ele é um gás natural e é parte da vida. Dentre outros benefícios, as plantas fazem fotossíntese com ele e produzem alimentos, que mantêm os outros seres vivos. Sem ele, nós não existiríamos. Não há justificativa para se utilizar a hipótese do AGA como tentativa de alertar a população para a conservação ambiental. Isso é uma hipocrisia, é maquiavélico! Mudanças climáticas é um assunto completamente distinto de conservação ambiental. Essa tem que ser praticada para a própria sobrevivência da espécie humana, independente de um aquecimento ou resfriamento global. O fato é que não há evidências que o homem seja responsável pelo aquecimento verificado entre 1977 e 1998. De lá para cá, não ocorreu nenhum ano mais quente, embora a concentração de CO2 continue batendo recordes. É muito provável (“very likely”), para usar a terminologia do IPCC, que haja um resfriamento global nos próximos 20 anos, se o sistema climático se comportar como nos últimos 100 anos. O Pacífico está em uma nova fase fria de sua ODP e o Sol estará num mínimo de atividade nesse período (Mínimo de Gleissberg ou Dalton). O resfriamento do clima é ruim para o mundo e para o Brasil, conforme a análise dos dados do período 1947-1976 demonstrou (Leia mais: PERSPCT_CLIMA)

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