EFEITO DO USO DO SOLO: DESMATAMENTO
Numa seqüência de artigos estamos analisados os três principais efeitos que tornam as séries não-estacionárias: mudança climática, variabilidade climática e uso do solo. Nos três artigos anteriores discutimos os dois primeiros efeitos e neste iniciaremos é inicialmente analisando o uso do solo num dos seus efeitos principais, o desmatamento.
A alteração sobre o uso e manejo dos solos da bacia pode ser classificada quanto ao
(a) tipo de mudança: desmatamento, reflorestamento ou impermeabilização; (a) uso da superfície após o desmatamento: agricultura, pasto, urbanização, reflorestamento e extração seletiva de madeira; (c) método de alteração: manual, mecanizado, queimada. Qualquer que seja a alteração poderá produzir modificações na distribuição temporal e espacial das vazões dos rios, dos sedimentos e da qualidade da água. Quando esta água é utilizada num determinado local da bacia o usuário poderá estar em risco quanto a qualidade e quantidade da água disponível.
A seguir vamos analisar cada um destes efeitos sobre a vazão neste e, em outros artigos semanais. O primeiro dos efeitos será o desmatamento.
Quando ocorre o desmatamento sobre uma determinada área, a mesma tende a recuperar a sua cobertura, o impacto sobre o balanço hídrico da área apresenta um comportamento como o apresentado na figura 1. Num primeiro estágio ocorre aumento na vazão média, com redução da evapotranspiração, devido a retirada da cobertura. Com o crescimento da vegetação (cerca de 20 anos) o balanço tende a voltar as condições iniciais devido as recuperação das suas condições prévias. Este é o cenário que o solo não é explorado sistematicamente ao longo do tempo e a natureza recupera as suas funções. Isto ocorre com plantio de subsistência.
Quando o solo é explorado para pasto ou agricultura com cultura anual como o soja o cenário após o desmatamento se mantém no tempo, com maior agravamento dos seus efeitos se não ocorre conservação do solo.
Grande parte das pessoas relaciona o desmatamento a diminuição da chuva, no entanto, isto somente ocorre quando a floresta tem capacidade de interferir nos processos de climáticos regionais. Isto geralmente não ocorre quando a área desmatada tem pouca abrangência e mesmo em grandes áreas o seu efeito pode ser insignificante.
Os principais efeitos na vazão média são: a redução da cobertura de floresta aumenta a vazão média; o estabelecimento de cobertura florestal em áreas de vegetação esparsa diminui a vazão média; a resposta a mudança é muito variável.
É possível encontrar na literatura experimentos que mostram aumento ou diminuição da vazão mínima depois do desmatamento. O que pode caracterizar um caso ou outro depende das características do solo após o desmatamento. Quando as condições de infiltração após o desmatamento ficam deterioradas, por exemplo o solo fica compactado pela energia da chuva, a capacidade de infiltração pode ficar reduzida e aumentar o escoamento superficial, com redução da alimentação do aqüífero. De outro lado, se a água que não é perdida pela floresta, atinge o solo e infiltra, o aqüífero tem uma maior recarga, aumentando as vazões mínimas.
A inundação de pequeno e médio tempo de retorno tende a aumentar com o desmatamento, enquanto que nas cheias de maior magnitude, as diferenças na proporção do aumento é menor.
A vazão média no rio Paraná em diferentes locais (do rio Grande até no trecho argentino) mostrou aumentos de pois de 1970 da ordem de 30% ba vazão. Este efeito teve dois componentes a variabilidade climática e o uso do solo. A bacia incremental de Itaipu (entre Rosana e Itaipu) sofreu importante desmatamento, além da substituição do café principalmente pelo soja no Norte do Paraná. O aumento da precipitação nesta bacia incremental foi de 10% e aumento de vazão de 44 %. Para bacias consolidadas em termos de alteração do uso do solo como a bacia do Rio Grande, observou-se que as alterações da chuva explicam a alteração da vazão, sem maior efeito da alteração do solo que já tinha ocorrido.
Na figura 2 abaixo se pode observar claramente a alteração da relação precipitação x vazão entre os períodos para a incremental de Itaipu, o que produz parte importante da alteração da vazão.
Nesta bacia também se observou aumento da vazão mínima em diferentes sub-bacias, o que também combina os dois efeitos mencionados.

Figura 1 - Modificações no escoamento e evapotranspiração devido ao desmatamento numa bacia no Sul da África (VÖRÖSMARTY, C.J. ; MOORE, B.; GRACE, A.; PETERSON, B.J.;RSTETTER, E.B.; MELILLO, J. 1991. Distributed parameter models to analyse the impact of human disturbance of the surface hydrology of a large tropical drainage basin in southern Africa, in: Hydrology for the Water Management of Large River Basins F.H.M. Van de Ven, D. Gutnecht, D. P. Loucks and K.A. Salewicz (eds), IAHS Publ. 201.
Figura 2 Relação entre escoamento e precipitação na bacia incremental de Itaipu

