Arquivo de Janeiro de 2009

HIDROLOGIA E O CONCURSO DA ANA

Tenho recebido muitos e-mails solicitando informações, principalmente do livro de Hidrologia: Ciência e Aplicação, com vistas ao concurso da ANA. Em função disto, estou aproveitando este blog para reunir um conjunto de informações que podem ser úteis para quem está se preparando para o referido concurso e outros no futuro.
Alguns dos interessados tem tido dificuldade de obter o livro mencionado acima. Quem publica o livro é ABRH e Editora da UFRGS. Quando não é encontrado nas livrarias pode ser obtido pela internet, no site www.ABRH.org.br, entre na opção livros, que existem as instruções. Para maior urgência ligue para 51 3308 6652.
Quanto as informações adicionais sugiro o seguinte:
A – a publicação que preparei para o Ministério do Meio Ambiente ” Avaliação Ambiental Integrada de bacias hidrográficas “ pode ser copiada no site www.rhama.net. Procure por cursos e, em específico, o curso AAI. O texto está completo e pode ser copiado. O Capítulo 1 resume os conceitos hidrológicos e de qualidade da água com indicadores; O Capítulo 2 trata dos usos da água o Capítulo 3 – Gestão dos Recursos Hídricos o Capítulo 4 trata das ferramentas de apoio na gestão e no capítulo 5 os conceitos de Gestão Integrada e Avaliação Ambiental. No final do texto existe um conjunto de sites recomendados onde existem conteúdo complementar.
B – No mesmo site acima www.rhama.net, existe um conjunto de aulas utilizadas no curso de Hidrologia do IPH/UFRGS e as aulas que preparei para um curso na ANA alguns anos atrás para os profissionais aprovados no concurso. Este material também sintetiza conceitos importantes que fazem parte do programa do concurso.
C – para complementar o conhecimento e para quem tiver tempo, existem alguns artigos selecionados: “ Impacto da Variabilidade climática e uso do solo nos recursos Hídricos” que preparei para ANA. Está no site da Rhama e no da ANA para download, tem material sobre mudança climática (superposição de algum conteúdo com o material do AAI). Também sugiro sites em literatura inglesa como www.gwpforum.org que possui uma seção de papers e a chamada “toolbox” com informações de experiências mundiais. Outro site interessante com vários conteúdos educacionais é o www.capnet.org. A Capnet uma rede de capacitação que possui conteúdo sobre cursos de gestão de recursos hídricos e assuntos correlatos.
Sugiro que estudem procurando entender os principais processos, variáveis e parâmetros envolvidos e como se inserem dentro da gestão de recursos hídricos, principalmente entendendo as principais funções hidrológicas utilizadas em recursos hídricos, que são curva de probabilidade de vazões máximas e mínimas, curva de permanência e curva de regularização de vazões. Boa sorte!

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EFICIÊNCIA E CONSERVAÇÃO DA ÁGUA

Na semana passada mencionamos o cenário que as grandes metrópoles estão vivendo de grande crescimento espacial e contaminação das suas fontes de abastecimento. Na semana passada numa reportagem do jornal “O Valor “a secretaria de Energia e Saneamento de São Paulo menciona o estudo que está sendo realizado em São Paulo para busca de novas fontes de água, já que a Região Metropolitana está no seu limite de disponibilidade em 67 m3/s. Considerando aí a importação de água da bacia do rio Piracicaba.
Um dos aspectos interessantes abordados é a redução das perdas na rede de abastecimento que foi mencionado pela secretária que é de 28% e a meta é buscar chegar até 14%. Considerando a vazão total acima de 28% representa 18,8 m3/s. No entanto, deve-se considerar que a perda média nos Estados Unidos é de 12% e, com muito investimento pode-se chegar a 8%. Uma estimativa aceitável em função da idade da rede é da ordem de 15%, que é a meta apresentada. A Coréia do Sul com muito investimento conseguiu baixar de 35% para 15% devido a limitada disponibilidade hídrica. No caso de São Paulo, a redução em 14% das perdas representará 14,4 m3/s, quantidade esta que poderá abastecer 4,5 milhões de pessoas adicionais.
É importante destacar a diferença entre eficiência e conservação da água. A eficiência na gestão da água trata dos processos e técnicas que melhor disponibilizem a água seja ela para abastecimento, irrigação e outros. A conservação envolve o uso racional da água, ou seja, sem desperdícios de consumo. Quanto a isto é interessante observar que no consumo da água países como os Estados Unidos tendem a ser eficientes no uso da água, mas de baixa conservação, pois a média de consumo da água neste país é superior a 600 litros/dia/pessoa, diferente de alguns países europeus que é da ordem de 150 litros/dia/pessoa e do Brasil que é de 200 a 250 litros/dia/pessoa.
Este alto consumo muitas vezes está relacionado com vários fatores como: (a) baixo preço da água se comparado ao poder aquisitivo da população; (b) falta de medição individual; (c) uso extensivo para irrigar em áreas semi-áridas ou muito secas como Oeste americano; (d) baixa eficiência de consumo (Quando morei nos Estados Unidos, por várias vezes vi os sprinkles ligados em dia de chuva). Neste caso, observa-se que a eficiência não está somente nas empresas distribuidoras, mas também nas pessoas que utilizam a água para todo tipo de limpeza.
O maior regulador do consumo é o preço, pois a eficiência somente é obtida quando se dá o efetivo valor econômico ao bem e a cobrança progressiva de consumo permite esta valoração. O subsídio de consumo pela população de baixa renda pode ser realizado de acordo com o consumo. Esta já é prática brasileira, que ainda necessita algum aprimoramento como no consumo de edifícios, onde em muitas cidades não existe medidor individual.
O desenvolvimento de eficiência e conservação deverá ser impulsionado pelas pressões de disponibilidade e ambiental. Por exemplo, em Denver os locais reservatórios de abastecimento de água não foram aprovados ambientalmente e a cidade foi obrigada a racionalizar a água (conservação), o consumo era superior a 600 l/dia/pessoa. A criatividade quanto a conservação e uso da água envolve: (a) separação de água negra e água cinza dos edifícios para reuso; (b) uso de reservatórios para água de chuva; (d) redução de perdas da rede de distribuição; (e) aumento da eficiência dos vasos sanitários; (f) mudança da progressividade dos valores de consumo, que levem a eficiência de consumo. O valor adicional cobrado financiaria um programa educativo de conservação; etc.
Não acredito na crise da água a nível mundial, como tanto se fala, mas sim em crises localizadas de grandes centros urbanos ou de áreas de baixa disponibilidade. A eficiência e a conservação dependem muito da motivação financeira e da crise, mas é melhor se antecipar.

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SUSTENTABILIDADE DAS ÁGUAS URBANAS

Nesta série de artigos sobre a sustentabilidade urbana, destacamos agora os aspectos das águas urbanas e seus desafios.
A concentração de pessoas num mesmo espaço tem produzido um número significativo de desafios relacionados com as águas urbanas que são:
• Contaminação dos rios e aqüíferos por efluentes: poluição difusa rural e urbana, resultado do escoamento pluvial; falta de coleta e tratamento de efluentes industriais, comerciais e doméstico das cidades e áreas rurais;
• Áreas degradadas: erosão do solo e de canais naturais, sedimentação de sedimentos e contaminação do solo devido a urbanização pelo aumento da velocidade do escoamento;
• Contaminação de resíduos sólidos: produção de resíduos da população que não é coletado, ou ruas e passeios sem limpeza e ainda os aterros e lixões.
Estes três grupos de impactos reduzem a segurança sobre a água utilizada nas cidades, gerando fontes de contaminação e deteriorização do meio ambiente aquático e terrestre.
A sociedade procura evitar estes problemas com a prestação de serviços públicos de Água (abastecimento de água), Esgoto (esgotamento e tratamento dos efluentes doméstico e industrial), Drenagem Urbana (escoamento pluvial) e Resíduos Sólidos (coleta, limpeza e disposição). A eficiência como estes serviços são prestados na cidade é que levam a sustentabilidade.
O cenário mais freqüente na realidade brasileira é de cidades que não tratam seus efluentes ou por serviços ineficientes. Como é retirada a água a montante para abastecimento e lançado a jusante o efluente sem tratamento (figura), espera-se que o problema seja transferido para a cidade de jusante. No entanto, provavelmente esta cidade já está recebendo a herança da cidade de montante e os impactos transferidos num ciclo de contaminação. Isto também ocorre na água subterrânea. De forma radical, seria como lançar o esgoto de uma residência no poço onde ela se abastece.
A tendência é de se utilizar água de efluentes para abastecimento de água, em menor ou maior quantidade, com mais ou menos resíduos. A realidade é que, na medida em que a carga aumenta o tratamento convencional não é suficiente e se houver limitação de disponibilidade a tendência será de reuso disfarçado ou não desta água. Veja os exemplos abaixo.
Em Orange County (região de Los Angeles), 20% da água de abastecimento é reutilizada. O sistema de tratamento passa pelo tratamento convencional onde 80% da carga é removida, para depois passar por: Microfitration : um sistema de baixa pressão onde são removidas partículas e bactérias; RO um sistema de alta pressão que remove minerais e contaminantes ( sais, vírus, e químicos como pesticidas) a nível molecular; Purificação ultravioleta que remove agentes biológicos e traços de químicos orgânicos. A água é considerada pura nesta estágio.
Depois destas etapas são introduzidos alguns minerais e introduzidos nos poços. O sistema de abastecimento utiliza 75% da água dos aqüíferos para abastecimento. A demanda é alta cerca e 200 galões por dia por pessoa (~ 770 litros). Para maiores detalhes veja a reportagem sobre o assunto em
http://www.waterefficiency.net/may-june-2008/ultmate-recylcing-program-3.aspx
A própria cidade de São Paulo quando ligou a Billings com a Guarapiranga utiliza da ordem de 4 m3/s de água de braços da Billings que são transferidos para a Guarapiranga que utiliza da ordem de 16 m3/s . Como a Billings possui vários graus de poluição da região metropolitana de São Paulo com sua conexão com o rio Pinheiros e a carga das suas áreas limítrofes, existe um reuso de parte do volume utilizado pela cidade.
Este cenário crítico de longo prazo exige dos gestores uma visão integrada para dar soluções de longo prazo e superar as dificuldades institucionais imposta pela organização da nossa sociedade. As principais dificuldades não são técnicas, mas institucionais.

Fig 3 1gif - Fig 3 1gif
figura sistema de coleta e despejo urbano

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CIDADES SUSTENTÁVEIS E AS ÁGUAS URBANAS II

Comentamos em semana anterior o acelerado crescimento das cidades e os impactos gerados no seu ambiente sobre a própria população e ao ambiente devido principalmente a forma como desenvolvemos a gestão da cidade.
A cidade é um centro de moradia, serviços, comércio e indústria que tem principal propulsor a economia regional e do país. Este mecanismo pressiona o desenvolvimento da ocupação do espaço que necessita de infra-estrutura como: transporte, energia, comunicação e água, mas para sua sustentabilidade deve garantir educação e saúde (social) e conservação ambiental (água, ar e solo). Para atender este conjunto de necessidades é necessário um processo institucional adequado que se utiliza de legislações e administração (gestão) destes componentes.
As metas do desenvolvimento urbano sustentável são de conservar a biodiversidade, saúde, qualidade dos ecossistemas em níveis sustentáveis.
As políticas públicas voltadas para a cidade devem procurar:

•Justiça social pela sustentabilidade econômica baseada na equidade construída dentro da sustentabilidade ambiental;
•Manutenção do capital ambiental;
•A taxa de uso de recursos renováveis não deve exceder a taxa de reposição destes recursos;
•Taxa de emissão dos poluentes não deve ser superior a capacidade de absorção dos sistemas naturais.

Para isto é necessário implementar um conjunto de princípios relacionados com a infra-estrutura urbana que são:

•Promover a conservação da biodiversidade e os habitats naturais;
•Uso de transporte público eficiente e de baixas emissões de gases e redução do uso de combustíveis fósseis em todos os veículos;
•Estratégias para aumento do uso de transporte público;
•Uso racional da energia;
•Uso de materiais ecologicamente adequados nas construções
•Uso racional da água, tratamento de efluentes, priorizando conservação e reuso;
•Redução dos sólidos finais pelo aumento da reciclagem e regulação pelo uso de embalagens;
•Implantação da infra-estrutura e de novas construções preservando os ravinamentos e infiltração, conservação do solo para evitar erosão, redução da poluição difusa rural e urbana e manutenção da vazão e velocidade das condições naturais;
•Zoneamento preventivo sobre as áreas de risco urbano;
•Implementar incentivos econômicos como certificação ambiental para novos empreendimentos;
•Promover a capacitação de profissionais, população, decisores sobre sustentabilidade;
•Promover o aumento do conhecimento sobre os processos ambientais e sociais para melhor gestão da cidade.

Será este modelo teórico aborrecido e utópico? Provavelmente se olharmos para as nossas cidades pode-se observar que falta muito para atingir metas sustentáveis, mas existe uma melhora sensível nos últimos anos. Estes mesmos objetivos e princípios são metas de cidades de países que são considerados em estágio desenvolvido, portanto também ainda não chegaram a estas metas, mas estão mais próximos.

Qual o modelo para atingir estes objetivos? Em primeiro lugar é necessário pensar a cidade como um todo e não fragmentada como atualmente é realizado. A divisão de tarefas dentro da cidade entre secretarias (geralmente de partidos diferentes), geralmente por tema, não vê a cidade com suas interações e geram “tribos” que frequemente entram em conflito. O segundo aspecto é criar mecanismos legais de obrigatoriedade para os diferentes mecanismos citados acima nos princípios, dentro de padrões mínimos a serem atingidos dentro de um período de carência. O Terceiro é a criação de mecanismos de certificação ambiental que induza aos investimentos a atingir padrões de qualidade ambiental.

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