Arquivo de Agosto de 2009

ENTREVISTA COM PROF. MARIO MEDIONDO

O prof. Eduardo Mario Mendiondo é engenheiro de Recursos Hídricos, UNL, Santa Fe, Argentina, 1991, MSc em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pelo IPH/UFRGS, 1995; Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pelo IPH/UFRGS, 2001. Pós-doutorado no Center for Environmental Systems Research, Univ Kassel, Alemanha. Professor Doutor da Escola de Engenharia de São Carlos/USP. Atua em ecohidrologia urbana, gestão de riscos, planejamento estratégico e modelos de gestão de demanda hídrica

1. Tucci - Tanto a formação em Recursos Hídricos como Meio Ambiente são interdisciplinares e deveriam fazer parte da formação das áreas técnicas, como você vê a criação de cursos como Engenharia Sanitária, Ambiental e de Recursos Hídricos?

Mediondo - Alguns pensadores dizem que “perguntas simples levam às respostas longas que precisam de algum contexto para serem resumidas”. Essa pergunta tem aspectos históricos e que talvez se resumem em três momentos: um técnico-científico, um legal-normativo e acadêmico. Eles aconteceram parte em série e parte “em paralelo”, mas com um início claro no foco sanitarista. O primeiro momento (momento técnico científico) é marcado na década dos anos 70 e 80 com a forte presença de pesquisadores e professores brasileiros sendo qualificados em universidades estrangeiras e com novos enfoques para os recursos hídricos no Brasil. Nessa década nasceu a ABRH, como um processo natural graças à organização de talentos que visaram uma adaptação aos novos desafios de conhecimento. Se rever a ata de criação da ABRH cita-se a frase “…engenharia de recursos hídricos…”. Este processo desencadeou o segundo momento (legal-normativo) quando esse conhecimento se traduziu na criação de leis e normas. Na década de 1990 re-nascem as leis estaduais de gestão de recursos hídricos, com um formato diferentes às anteriores leis ou decretos, sendo o ano 1997 um marco em torno da sanção da Lei 9433/97. Nas duas últimas décadas seguintes, o Brasil continuou a ter avanços importantes e melhoria na sua legislação federal e dos estados. Mas o interessante que isto se dá COINCIDENTEMENTE durante um período de globalização de idéias e, sobretudo, de disciplinas. Os problemas passaram a ser de cunho interdisciplinar e com visão global, porém de ação local. Nessa década a Engenharia Ambiental toma destaque mas também cria-se o primeiro Curso de Engenharia Hídrica. Quando se chega ao século XXI, o próprio CONFEA/CREA reconhece as competências da engenharia ambiental. Um pouco depois, reconhece a Engenharia Hídrica. Um novo passo é a Lei de Saneamento (11.445/07), aguardada por muitos anos. Nela, é claro advertir que aspectos de abastecimento, esgotamento sanitário, drenagem pluvial e resíduos sólidos NAO são mais excludentes e sim complementares e integrados. Com o advento de instrumentos como o de cobrança pelo uso dos recursos hídricos, esse novo marco legal leva a uma reflexão natural da MISSÃO E VISÃO dos Cursos. Atualmente (2009) o MEC inicia uma consulta para reavaliar bases nacionais de Cursos. Se esta leitura incluirmos as vocações regionais de um país continental como Brasil, entende-se facilmente a grande quantidade de nomes e modalidades de Cursos. Sempre brinco que existem discussões em torno de temas de “iniciação”, por exemplo de drogas, do sexo, ou até da independência financeira. Mas a “hidroiniciação” em termos de Curso Profissionalizante para um jovem que procura uma vaga no mercado é um tema que fica bastante separado do jargão popular. Por que será?

2- Tucci - Na prática observa-se que um grande número de pessoas de diferentes formações (engenheiros, advogados, administradores, economistas, biólogos, geólogos, etc) que atuam em recursos hídricos nos comitês, agências e atividades inter-relacionadas de meio ambiente. Não é possível esperar que todas venham a fazer mestrado e doutorado no assunto. Qual seria a sua sugestão para a formação destas pessoas?

Mediondo - Uma moeda com duas faces. A primeira é o elemento comum básico: a bacia hidrográfica. A outra face é o ritmo de descentralização da gestão de recursos hídricos A linha do tempo indica que escalas regionais, cada vez menores, sejam objeto de conflito e, portanto, de procura de soluções com instrumentos de política atual em torno da bacia hidrográfica. Isto não têm limites quanto ao processo; de fato, perante as leis a descentralização da gestão é ilimitada. Nessa situação encontram-se os comitês e consórcios de bacias hidrográficas, hoje os primeiros experimentos legais na área e que até podem chegar a vários tipos de pessoas jurídicas facilitado por uma grande opção do código civil vigente na maioria dos países incluído Brasil. Mas uma moeda não tem só duas faces: também ela tem um perímetro que as liga. Esse perímetro é de pouca grossura, mas vital. Esse perímetro de moeda chama-se “formação/capacitação da sociedade para uma governança de recursos hídricos”. Uma sociedade qualquer não consegue chegar a bacia hidrográfica com um processo de descentralização de gestão se não encarar a formação como uma parte estratégica. No entanto, o perfil e formação de pessoas que integram os comitês e câmaras técnicas é hoje muito variado. Por um lado, isso é muito bom dado que reforça elementos da democracia e da inclusão em um país que ainda sofre resquícios de desigualdade de oportunidades. O comitê de bacia oferece uma nova oportunidade para discutir direitos e obrigações de cunho cidadão. Aí estamos assistindo ao nascimento dos “cidadãos da bacia hidrográfica” um termo que paradoxalmente as comunidades indígenas conheciam muito bem e agora nos estamos, na realidade, “redescobrindo”. Para alguns, isto é bobagem. Para outros, é sinal de sobrevivência e estratégia de longo prazo perante cenários de escassez iminentes. As pessoas estão se acostumando a que a “bacia hidrográfica” é o elemento comum. Eis a nova governança. Mas por outro lado, essa governança é muitas vezes tratada como “poder”, como “governo” ou como simplesmente “administração”. O comitê torna-se um local para discutir e, até, avaliar o poder de interesses setoriais, e como a velocidade de aparecimento de conflitos é maior que a oferta de capacitação de pessoas na área de recursos hídricos, esta governança pode se tornar peculiar se não houver formação e capacitação contínua. Muitos pensandores e participantes como representantes de comitês, agências e câmaras técnicas é que devem recuperar a MISSÃO e VISAO de “governança hidrossolidária”, isto é a formação de gestores que busquem objetivos comuns e soluções que real alcance participativo. Por isso é que os novos cursos, sobretudo das engenharias de recursos hídricos ou “hídricas” em geral, devem ser sensíveis a estes desafios para tornar profissionais que sirvam de “facilitadores” dessa “cidadania da bacia”. Mas se a demanda por soluções de problemas for maior que a oferta de profissionais qualificados, as sociedades aceitam ao menos investir em “Cursos Profissionalizantes” de recursos hídricos. Qual será o caminho que o Brasil terá nas próximas décadas? Acredito que ambos: continuar a formar bons quadros em recursos hídricos, com cursos mais longos, mas também oferecer opções de capacitações profissionalizantes para hidrometristas, operadores de barragens, fiscalizador de bacias, ou outros títulos que, embora alguns ainda não existam, podem servir para as demandas mais simples do futuro.

3- Tucci - Se você fosse orientar um aluno no início da sua formação que acha interessante atuar em Recursos Hídricos e Meio Ambiente, por onde deve começar, para daqui a cinco anos ter mercado, num mundo tão dinâmico? O que você acha que serão os desafios modernos?

Mediondo - O mundo sempre continuará a necessitar pessoas que ofereçam soluções a problemas cada vez mais complexos e em escalas que interfiram com nosso cotidiano. Isto tradicionalmente está ligado á área das engenharias, embora as áreas tecnológicas de química, biologia e física estão fazendo sua parte. Para saber oferecer soluções é importante ser treinado com problemas a resolver. Meu conselho é que esses futuros profissionais devam ser inovadores por natureza, flexíveis enquanto à aceitar várias opções de solução, inclusive vários pontos de vista dos cidadãos e clientes, mas que mantenham uma alta excelência técnica para otimizar os resultados dessas soluções. Isto significa que as duas máximas conhecidas do jargão como “correr atrás” e “aprender a se virar” continuarão a ser o grande diferencial do “engenheiro líder, de inovação e dinâmico” daquele “engenheiro calculista, extremamente normativo e parado no tempo”. Antes de qualquer disciplina, eu chamaria esse aluno e estabeleceria com ele algumas linhas primordiais que ele não poderá deixar de fazer em qualquer momento, sobretudo os mais difíceis. E essas duas máximas iriam junto com essas reflexões. O engenheiro de recursos hídricos e ambiente deve ter forte formação em matemáticas, química, física e biologia; mas deve ser aberto o suficiente para viver em um ambiente multicultural e, sobretudo, acreditar no seu trabalho bem feito. O engenheiro do futuro lê bastante, pratica sua teoria com a sociedade dinâmica, reflete bastante sobre este contato e se adapta de forma constante. Não saber se adaptar, porém mantendo a qualidade e profundidade técnica, é sinal de falta de visão de futuro.

4 - Tucci - Na sua visão qual o mercado de recursos hídricos e meio ambiente para um aluno que está próximo da sua formatura atualmente ?

Mediondo - O aluno é livre de optar qual estágio curricular e qual trabalho de graduação ou de conclusão de Curso fazer. Mas cuidado! Como a palavra “gestão” é uma necessidade, há uma falsa crença que para fazer gestão só se precisa conhecer leis e atender normas. Isso está errado e é um dos fatores que há cada vez mais uma preocupação para “blindar” administrações, do que praticar atitudes eficientes. Um episôdio interessante aconteceu quando tive que oferecer a disciplina de Gestão Ambiental no curso homônimo. O primeiro dia, quando falei da missão e visão de um engenheiro para fazer gestão ambiental que é uma forma de solucionar problemas complexos com dimensões econômicas, legais e sócio-ambientais, um dos alunos “sentiu” que haveria trabalhos e processos de cálculo e me perguntou: “Mas professor, eu entendi que para fazer gestão precisamos ter um bom discurso e conhecimento, e não precisamos das ferramentas técnicas de cálculo…”. Depois de um ano de trabalho, com base em resolver problemas complexos, multisetoriais e com muito texto novo, não necessariamente normativo, essa turma, e esse aluno, entenderam que “gestão não é somente um papo, e sim um conjunto de técnicas para resolver problemas, algo inerente do engenheiro…”. Portanto, eis uma gestão próativa direcionada para o mercado de engenheiros. Se houvesse uma supervisão da prática durante o Curso o aluno veria que esse “mercado” está nas suas mãos, muito mais próximo do que ele se imagina. Mas como há uma tradição de docente ou aluno aceitar que o mercado de recursos hídricos é um meio onde não há lugar para a inovação, para o empreendedorismo, muitos egressos não compreendem qual é o potencial de sua formação para um mundo cada vez mais “sedento” de soluções práticas, de ideias complementares e de projetos que visem a sustentabilidade. Um exemplo é que não há ou faltam especialistas em aconselhamento de formação de associações ou consórcios de usuários de bacia hidrográfica. Parece uma bobagem, mas mercado não acaba, só cresce e, por falta de interesse, só aparecem formações como contadores ou advogados que conhecem muito bem a área, porém não têm condições de avaliar “otimizações de um sistema”, “controle e recuperação”, “melhoria de eficiência de processos”, etc, temas de cunho exclusivo do engenheiro. Outro exemplo é que somos uma geração que primou por avaliar, aperfeiçoar e otimizar uma parte de nossos problemas que é a oferta por um recurso. E o que o mercado está precisando é expertos em otimização da demanda, por exemplo em produção mais limpa, sustentável, mas que dê lucros e solvência à empresa. A certificação de processos de ciclo de vida com água virtual e pegada ecohidrológica são buscados aos montes pelas empresas, e os profissionais que aparecem devem ser re-recrutados por elas para saber do que se trata. Isto é uma bofetada para os cursos que ainda estão pensando em grandes obras, grandes infraestruturas e descuidam que a elasticidade da demanda NAO é um conceito puramente econômico e sim um fundamento para melhor administração dos recursos, sobretudo os hídricos. Outro tema de futuro é que “balanço hídrico” só faz sentido quando forem incluídas as componentes de água virtual. Imagine que perante cenários de mudança de longo prazo, p.ex. clima, urbanização etc, existem limites fisiológicos e culturais que as pessõas só se acostumarão se houver uma mudança de hábitos, sobretudo da forma de consumo de bens e serviços. Um tema de real mercado é formar um engenheiro de recursos hídricos que tenha elementos para controlar e diminuir a pegada ecohidrológica do consumo. Brasil em 2009 terá um consumo interno de quase R$ 2 trilhões. Em 15 anos esse valor pode duplicar e até agora não há engenheiros treinados em como fazer isto mais eficiente, isto é fazer “pulos de eficiência” para obter os mesmos bens e serviços mas com um consumo cada vez menor e melhor.

5 - Tucci - Com a internet a quantidade de informações que chega é muito grande, as revistas com publicações científicas publicam o que era o conhecimento de 2 a 4 anos no passado, devido ao processo de seleção. Na sua opinião como estar atualizado, sem perder o foco?

Mediondo - Eu brinco que se a atual geração de alunos de pré-escola já discute ciclo hidrológico e balanço hídrico sustentável, quando eles chegarem ao “colegial” estarão fazendo otimização de componentes desse ciclo, até de uma maneira mais lúdica e simpática do que às vezes encontramos durante “trombadas verbais em reuniões de comitês de bacias”. E então, qual carreira optar para seguir em “recursos hídricos”? Um jovem universitário deve manter foco em problemas e clientes, sobretudo fazendo uma projeção simples de problemas que aumentarão e que demandarão novo pensamento, como também sobre a melhor tecnologia e sua evolução. Por um lado, a melhor forma de estar atualizado dos problemas é fazer estágios e trabalhos de graduAção com empresas e firmas da área; participar de associações, consórcios e comitês de bacia e suas câmaras técnicas também ajuda, só que o nível técnico é diferente. Por outro lado, não deve ter medo de discutir e refletir o por quê das limitações, problemas e erros que a sociedade cometeu no passado em torno dos recursos hídricos. Um exemplo disso é “refazer” uma leitura de história e política internacional e ver que a maioria das rivalidades, guerras, crescimentos e quedas de impérios e civilizações estavam de alguma maneira ligada a “esperteza” ou “ineficiência” de se adaptar a uma gestão eficiente, otimizada ou com governança participativa dos recursos hídricos. Nisso a internet pode ser de utilidade.

6 - TUCCI - Existe um permanente conflito entre desenvolvimento e sustentabilidade, onde o equilíbrio leva ao desenvolvimento sustentável. Como você analisa a situação brasileira atual? você é otimista ou pessimista?

Mediondo - Um bom administrador e tomador de decisão em recursos hídricos entende rápido, porque provavelmente assim foi na sua graduação, que “sustentabilidade”, “inovação” e “empreendedorismo” não estão nunca separadas e sim são pilares para uma boa governança hídrica. Um exemplo disto é que existem planos de bacia que já incluem nas metas aspectos de “neutralidade hídrica” a partir de possíveis mudanças culturais, econômicas e climáticas. Como as margens lucrativas são cada vez menores, a “eficiência” passa a ser um elemento vital. Isto é uma clara mensagem para aqueles profissionais que acreditam que as frases: “refletir erros”, “problematizar soluções”, “inovar e otimizar”, e “saber gerenciar” têm uma ordem lógica na formação. Os cenários 2025, 2050 e 2100 para América do Sul e especialmente para o Brasil indicam que o grande diferencial será a “gestão da demanda”. Uma boa notícia é que se aos cenários de oferta e demanda de cada Plano de Bacia Hidrográfica forem aplicadas algumas poucas e simples equações de otimização da demanda em torno da elasticidade de preços, qualquer aluno encontra que as curvas tornam-se cada vez mais inelásticas devido a que o recurso torna-se mais vital, e mais escasso. O resultado? É que é possível entender HOJE quanto poderá aumentar o preço pelo uso setorial de recursos hídricos nos próximos 20 ou 50 anos. Portanto, isto é um bom e pequeno exemplo de que a otimização da cobrança em função da gestão da demanda não é mera ilusão teórica, e sim uma realidade urgente que está chegando. Por isso, sou ainda otimista de pensar que o engenheiro de recursos hídricos do futuro se verá cada vez com mais opções de mercado e que terá boas lembranças de “facilitadores”, desses professores, que acreditaram nele quando deram mais trabalho para fazer, mais elementos para pensar. Cada um traz um diferencial e potencial para ser desenvolvido e que deve ser redescoberto todos os dias.

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ENQUADRAMENTO DOS RIOS: PROCEDIMENTOS

Quando os rios brasileiros atravessam as cidades tornam-se muito poluídos devido a grande quantidade de poluição que as cidades jogam nestes rios (veja a charge abaixo preparada por Fernando Dorneles). As cidades se tornaram um grande aspirador de recursos naturais que são transformados em lixo, esgoto e todo tipo de poluição.
Um dos principais instrumentos existentes na legislação de recursos hídricos e de meio ambiental para gestão da qualidade da água é o enquadramento dos rios. O enquadramento é o instrumento de estabelecimento de metas intermediárias e finais de qualidade da água de um trecho de rio, tendo como referência a bacia hidrográfica e os usos preponderantes mais restritivos. A Resolução CONAMA 357/2005 estabelece as classes dos rios quanto ao seu uso, de especial a 1, 2,3 e 4. A classes especial é a mais nobre e a classe 4 é imprópria para a maioria dos usos da água.
A resolução CNRH 12/2000 estabelece os procedimentos para o enquadramento. Esta resolução dispõe sobre o enquadramento de águas superficiais e subterrâneas.
Quando? O enquadramento deve ser realizado preferencialmente durante a realização do Plano de Recursos Hídricos da bacia, em consonância com seus objetivos e metas.
Quem? As agências de água ou de bacia ou entidades delegatárias das suas funções, em articulação com os órgãos gestores de recursos hídricos e os órgãos de meio ambiente, elaborarão e encaminharão as propostas de alternativas de enquadramento aos respectivos comitês de bacia hidrográfica para discussão, aprovação e posterior encaminhamento, para deliberação, ao Conselho de Recursos Hídricos competente.
Os órgãos de meio ambiente e recursos hídricos ficam responsáveis pelo monitoramento e a verificação das metas de cumprimento das metas do enquadramento, ficando também responsáveis de encaminharem a cada dois anos um relatório ao comitê de bacias e Conselho de Recursos Hídricos sobre a situação das metas e seu cumprimento, prevendo-se ações específicas quando não forem cumpridas. Os rios já enquadrados deverão se adequar aos novos procedimentos
Como? A proposta de enquadramento deve conter um diagnóstico, prognóstico, propostas de metas relativas às alternativas de enquadramento e; proposta de efetivação. Esta proposta deve considerar de forma integrada as águas superficiais e subterrâneas para a disponibilidade água em padrões de qualidade compatíveis com os usos. O processo deverá fazer consulta na comunidade da bacia hidrográfica por consultas públicas gerais e técnicas
Quais os critérios? O processo de enquadramento pode determinar classes diferenciadas por trecho ou porção de um mesmo corpo de água (considerando a bacia hidrográfica), que correspondem a exigências a serem alcançadas ou mantidas de acordo com as condições e os padrões de qualidade a elas associadas.
O processo de enquadramento deverá considerar as especificidades dos corpos de água, com destaque para os ambientes lênticos e para os trechos com reservatórios artificiais, sazonalidade de vazão e regime intermitente. Deverá também analisar de forma integrada as águas subterrâneas e superficiais.
A situação atual é preocupante, pois apesar de existir um processo legal bem definido a realidade é a pior possível. Nas próximas semanas vamos comentar os problemas e apresentar propostas.

Charge Tucci  1 - Charge Tucci  1

charge preparada por Fernando Dornelles

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POTENCIAL CONFLITO E ESCASSEZ DA ÁGUA NA ÍNDIA

Esta semana duas notícias chamaram a minha atenção no noticiário sobre a água que envolve a Índia (Valor Econômico de 13/agosto e de 14/agosto): “India tem queda recorde no nível de lençol freático” por Tim Sullivan da Associated Press e a coluna apresentada por Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos do Centro de Pesquisa de Nova Déli com o artigo “A divisão de águas sino-indianas”.
No primeiro é destacado o rebaixamento dos aqüíferos do país devido ao excesso de demanda de água para irrigação, já que existem muitos subsídios para irrigação, que somado ao aumento populacional (demanda humana) e indústrias de uso intensivo de água poderá estar agravando este problema.
A avaliação deste rebaixamento foi realizada com base em informações de satélite, com metodologia desenvolvida pelo programa GRACE (Experimento de Recuperação da Gravidade e do Clima http://www.csr.utexas.edu/grace/). Este programa iniciado em 2002 utiliza dois satélites para realizar medições da gravidade da Terra e suas variações da Terra e estima a variação de água dos sistemas naturais ao longo do tempo. Recomendo ver o filme em http://www.amnh.org/sciencebulletins/?sid=e.f.GRACE.20090717&src=l.
Com base nestas medidas foram estimadas as reduções de 54 km3 numa faixa de 2 mil km que cruza Paquistão, Bangladesh e Índia. Este tipo de metodologia também é utilizado para estimativa da variação do nível do mar.

O segundo artigo destaca uma questão estratégica da limitada disponibilidade de água para os dois gigantes mundiais (China e Índia), em população e de crescimento econômico acelerado. Os dois países juntos possuem cerca de 300 milhões de hectares agricultáveis. Contudo, a questão crítica destacada é de que a cabeceira e a regularização da água dos rios Indianos fica no Tibet (administração da China) com as geleiras e grandes aqüíferos.
A China está desenvolvendo projetos de transposição de bacia dos rios Tibetianos, o que reduziria a alimentação de água para índia, criando mais um potencial conflito pela água. A Índia, pressionada pela a escassez de água, a redução das suas fontes por transposição, que somado ao efeito climático de perda de regularização por derretimento das geleiras, teria necessariamente que reagir a estas questões, seja de forma a racionalizar seu consumo como no âmbito diplomático de um importante conflito. Isto se reflete atualmente na falta de compartilhamento de informações hidrológicas entre os dois países que tem produzido uma desconfiança mutua. No texto o autor destaca ainda a suposta intenção chinesa de utilizar explosões nucleares pacíficas para desviar o Brahamaphutra e a formação hidrológica do presidente chinês Hu Jintao como impulsionador dos grandes projetos hidrelétricos.
O que se observa é que a água é um produto em escassez em diferentes locais da Terra, principalmente devido ao desperdício e ao aumento da população e demanda (água virtual). A evolução natural da sociedade será de buscar soluções mais eficientes, mas isto somente ocorrerá quando o valor da água aumentar.

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O CLIMA ESTÁ ESQUENTANDO OU ESFRIANDO?

O clima de uma região é caracterizado por variabilidade espacial e temporal. A variabilidade temporal do clima é um dos principais fatores para a sustentabilidade humana e ambiental. As pessoas e o ambiente tendem a se adaptam variabilidade sazonal que é a mudança do clima dentro do ano. Esta variabilidade mostra, por exemplo, que num clima quente as chuvas são no verão e o período mais seco no inverno para um clima tropical e num clima temperado as chuvas são no inverno e as secas no verão. No Brasil, na maioria das regiões o período chuvoso vai de outubro a abril e o seco no restante do ano. No entanto, existem regiões como o Rio Grande do Sul onde o clima tende a ser temperado e Santa Catarina que não mostra sazonalidade definida devido a transição climática.

A variabilidade interdecadal é pouco conhecida e tem uma influência muito grande na sustentabilidade de uma região específica do planeta. Os modelos climáticos utilizados para prever as mudanças climáticas não conseguem reproduzir esta variabilidade. Existem vários indicadores do Pacífico e do Atlântico que procuram caracterizar o comportamento da variabilidade climática como o PDO (Pacific Decadal Oscillation) e o NAO (North Atlantic Oscillation) que determinam a situação da temperatura média do oceano em determinadas áreas. A série do PDO tem mostrado ciclos de 30 anos de períodos frios e quentes, que se correlacionam com as vazões do Sul e Sudeste do Brasil.

Num artigo recente o prof. Easterbrook (veja referência abaixo) apresentou um artigo onde questiona os resultados de aquecimento pela emissão de gases, as mudanças climáticas, e mostra que na realidade o aquecimento dos trinta anos de 1976 a 2005 (com um desvio de +- 3anos) é uma fase quente do PDO e que a tendência futura é de esfriamento do Pacífico e não de aquecimento. Prevê que estamos entrando na fase fria, que ocorrerá até cerca de 2030, passando depois para a fase quente novamente (veja as previsões na figura abaixo). O autor menciona que os dados da NASA já mostram este esfriamento.

Este parece um forte questionamento aos resultados do IPCC quanto às mudanças climáticas, mas não significa que as mesmas não estão ocorrendo, mas que seus efeitos podem ser menores que esta variabilidade natural. Como os modelos climáticos não captam estes efeitos a dúvida existe e dependerá de mais pesquisas sobre o assunto para que tenhamos melhor entendimento deste complexo processo. Dificilmente a natureza se repete como as projeções da figura abaixo, mas pode ser uma especulação de tendência
Como podem ver o título desta matéria ainda não tem uma resposta definitiva, mas muita especulação.

globalcool61 - globalcool61

Figura Projeção da temperatura global para o próximo século baseado no ciclo de aquecimento e esfriamento dos últimos séculos. Projeção A = baseado que a próxima fase fria será similar ao período de fase fria de 1945-1977. Projeção B=‘ baseada em que a próxima fase fria será similar a fase fria de 1880 a 1915. O ciclo quente de 2030 a 2060 é baseado na projeção do period quente de 1977 a 1998 e a fase fria de 2050 a 2090 é baseada novamente na fase fria de 1945 a 1977. Easterbrook (2008).

Acesse o artigo de Don Eastbrook no endereço abaixo. http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=10783%20

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MUDANÇA OU VARIABILIDADE CLIMÁTICA?

Na semana passada estive Maputo no Moçambique como professor num curso sobre Mudanças climáticas em recursos hídricos promovido pela Cap-net Rede de Capacitação de Recursos Hídricos do PNUD. Foi interessante conhecer Moçambique um país pobre que está procurando crescer e encontrar um grupo de alunos de países de língua portuguesa.
No curso apresentei uma lista de perguntas e respostas que ajuda a melhor compreender um pouco deste tema que está presente no noticiário e já faz parte da agenda de governos e empresas, mas que ainda possui um razoável conjunto de dúvidas.

1. O clima está mudando?
O clima sempre foi variável e deverá continuar assim. A variabilidade climática (processos naturais) é pouco conhecida e a nossa capacidade de percepção e adaptação é para a sazonalidade (mudança entre meses do ano) e entre poucos anos. Muitos dos efeitos hoje atribuídos a mudanças climática são efetivamente variabilidade climática entre anos.

2. Qual a tendência observada?
Existe um consenso que de a terra está aquecendo.

3. A causa é a emissão de gases antrópicos?Os relatórios do IPCC concluem que este aumento se deve a emissão de gases devido às atividades humanas com base em modelos e algumas evidências.

4. Existe consenso?
Existe consenso sobre o aquecimento, mas existem grupos de profissionais que questionam que a causa seja a emissão de gases. Justificam que as ferramentas (modelos) e conhecimento possuem ainda muitas limitações. Por exemplo, a variação das predições entre modelos é maior que a própria variabilidade natural do clima e dos cenários. Ao longo dos anos a posição da mudança climática tem se fortalecida

5. É possível esperar maior certeza?
Não é razoável esperar pela certeza. As ações de redução das emissões é uma precaução, mas a sociedade deve sempre buscar mais conhecimento sobre as incertezas das predições.

6. Quais são os impactos ?
Os impactos podem ser negativos e positivos e variam de acordo com a região do globo. O homem está adaptado a sazonalidade, mas muito pouco as condições interanuais. A história mostra que várias civilizações foram fortemente afetadas por mudanças de longo prazo (inter-decadais). Os principais impactos são sobre a disponibilidade de água, qualidade da água e saúde, inundações, agricultura, energia, meio ambiente, etc.

7. Como é avaliado?

 Evidências de comportamento de variáveis climáticas (temperatura, precipitação,etc) dos gases do efeito estufa;
 Prognóstico de cenários futuros de emissões de gases com modelos Globais climáticos ou modelos regionais

8. Os modelos climáticos não conseguem prever alguns dias no futuro, como podem prever até 100 anos no futuro?
Os modelos estudam cenários relativos e não valores absolutos. Os modelos atuais possuem dificuldade de reproduzir variabilidade climática observadas nos dados como os dos indicadores do Pacífico (PDO – Pacific Decadal Oscillation).

9. Todo evento climático é atribuído a mudança climática, isto é real?
Existe muito exagero neste sentido, pois a media utiliza e muitos profissionais atribuem tudo a mudanças climáticas, o que não é verdade. Isto pode ter um efeito contrário, pois está se observando um esfriamento no Pacífico nos últimos anos, que é devido a variabilidade climática, o que não significa que a mudança climática não ocorrerá, mas poderá levará a muitas pessoas a desacreditar e minar muito do esforço verdadeiro em curso.

10. Este assunto pode ser uma prioridade num país com grandes carências?
Deve complementar a agenda destes países, pois é importante analisar estas tendências no planejamento, já que podem ocorrer oportunidades importantes de obtenção e gestão de recursos que se complementam.

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