Arquivo de Dezembro de 2009

ENTREVISTA COM PABLO LLORET DO FUNDO DE ÁGUA DE QUITO

Pablo Lloret (pablo.lloret@gmail.com) é engenheiro civil especializado em hidráulica pela Universidade de Cuenca Equador, MSc em Gestão ambiental pela Universidade Pública de Navarra Espanha,MSc em Docencia Universitária pela Universidade do Azuay, Equador. Professor titular da Universidade do Azuay, Equador e Professor visitante da Pontifícia Universidade Católica Quito, Equador. É secretario técnico do FONAG Fundo para a Proteção da água, iniciativa da cidade de Quito para desenvolvimento integrado e sustentável dos recursos hídricos da cidade e sua bacia hidrográfica. O FONAG foi premiado recentemente pela UNESCO.

Tucci : 1 O que é a FONAG ? Como foi criado?

Pablo: O FONDO PARA LA PROTECCIÓN DEL AGUA FONAG( www.fonag.org.ec) é um fundo patrimonial fiduciário criado por 80 anos que serve para a proteção da água que abastece a cidade de Quito e seu entorno.

É um mecanismo financeiro simples que permite aos usuários e atores preocupados com a conservação da água possam materializar inversões para o cuidado deste recurso.
Em janeiro de 2010 o FONAG comemora 10 anos de criação e seu fundo patrimonial cresceu de US $21 mil a mais de US$ 7 milhões atualmente. Sendo patrimonialista, o fundo permite investir unicamente os rendimentos financeiros do mesmo. Estes valores têm sido utilizados nos últimos anos basicamente para “alavancar” fundos de doações. A relação entre os rendimentos financeiros e fundos de doações externos tem sido de um para quatro, ou seja, para cada dólar investido por FONAG em programas ou projetos, os fundos externos contribuem com quatro. .

Tucci: 2. Onde tem sido aplicado os recursos? e quem são os parceiros nestes investimentos?

Pablo: Os sócios do FONAG são a Empresa de Água e Saneamento de Quito, EMAAP http://www.emaapq.com.ec/ ; A Empresa de Energia Elétrica de Quito EEQ http://www.eeq.com.ec/ ; uma organização de conservação internacional Nature http://www.nature.org/wherewework/southamerica/ecuador_es/; uma Empresa Cervejeira, Cerveceriana Nacional http://www.cervecerianacional.com.ec/; uma Empresa de águas de mesa, Tesalias Spring http://www.tesaliasprings.com/index.asp; A Cooperação Suíça em Equador http://www.cooperacion-suiza.admin.ch/ecuador/

Os sócios contribuem ao fundo patrimonial de forma contínua, enquanto que existem os aportes em programas e projetos específicos das Cooperações Americana, Suíça, Francesa, Alemã e fundos de entidades nacionais governamentais e não Governamentais, contrapartidas de Governos locais, Municípios e localidades, entre os principais.

Tucci: 3. Na administração do Fundo quanto representa o custo de administração e qual é parcela fundo que é investida?

Pablo: O contrato de constituição do Fundo permite unicamente investir um máximo de 10% em gastos administrativos, o qual é obrigado a subcontratar serviços e produtos e manter um pessoal mínimo.

Tucci: 4. Quais são os resultados obtidos até o momento entre sucessos e fracassos? Como esta experiência está sendo copiada em outros locais do Equador e América do Sul?

Pablo: A primeira etapa da vida do fundo, entre sua criação e 2004 foi de capitalização para o fundo, onde não foi realizada nenhuma intervenção, na prática era uma conta no banco. Esta fase foi muito dura e contou com muitos detratores já que todos seus sócios queriam resultados, ações e visibilidade.

É indispensável para um fundo como este contar com indicadores claros e de fácil compreensão que demonstrem suas contribuições ao público em general seu impacto. Estamos trabalhando nisto e ainda não é um assunto resolvido para nós.

Os resultados principais é que a água está na agenda dos tomadores de decisão tanto a nível nacional, regional e local, não é um resultado apenas do fundo, mas em grande. O outro resultado foi poder reunir os atores e usuários de diversas índoles numa única mesa e com apenas um objetivo. Isto é difícil, mas conseguimos também obter um trabalho coordenado e com impacto.

Como resultados deste processo foram criados fundos semelhantes em outros locais do Equador: Ambato, Riobamba, Cuenca, Zamora y Espíndola; na Colombia em: Calí, Bogotá; no Peru em Lima. Para estes novos fundos estamos dando assistência técnica para desenvolver seus programas.

Tucci: 5. Quais são os planos para o futuro?

Pablo: Os planos são de consolidar a institucionalidade em torno da água na bacia (bacia do alto rio Guayallabamba que cobre a Região Metropolitana de Quito). Esta é uma tarefa em desenvolvimento, proposta e liderada pelo FONAG. Confiamos que o sistema de governança proposto (comitê de bacia) será um mecanismo efetivo para agrupar e buscar consensos em decisões responsáveis para o futuro da água na bacia. O papel do FONAG está definido numa proposta de impulsionar e acompanhar a criação e funcionamento do comitê e converter-se em uma secretaria técnica pelo menos nos primeiros anos de funcionamento.

Tucci: 6. Num pais que nos últimos anos tende para o estatísmo, existe risco para este Fundo, que é típico de um sistema capitalista ? (responda se desejar esta pergunta)

Pablo: Nos últimos trinta anos de nossa democracia mais recente, ocorreu um forte debilitamento do aparato estatal que gerou uma reação extremamente oposta. O governo atual quer concentrar e centralizar a tomada de decisões, que compreendo mas comparto, principalmente na gestão da água. A criação de alianças, neste caso entre o público o privado é mais importante para conseguir uma gestão responsável em longo prazo dos recursos hídricos, pois é a essência da gestão integrada.

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ÈFEITO NIMBY NA CONFERÊNCIA DO CLIMA

NIMBY é uma expressão americana que sintetiza “not in my back yard” (não na minha área), uma reação de uma parte da população as ações públicas sobre suas áreas de seu interesse. Todos desejam controle ambiental, infra-estrutura e o que há de apelo público desde que não atinja seu interesse específico.
Parece ter sido este efeito que se viu esta semana na COP15 de Copenhague que tratou de buscar um acordo sobre a redução da emissão de gases que produzem o efeito estufa. Todos desejam controlar as emissões no país dos outros, menos no seu. Isto resultou num tímido acordo sem muitas responsabilidades futuras, sobre uma meta mundial de não aumentar mais de 2º C. Ou seja, todos sabem o desejado, mas cada país busca que o outro faça a redução e poucos desejam cumprir a sua parte, apesar dos discursos.
Além disso, foi possível interpretar que no estágio atual das negociações as dificuldades residem no seguinte:

(a)A maioria dos países apresentou o que já estava na sua agenda de investimento e ação do país, apenas remodelado para parecer ambientalmente adequado, como o caso do Brasil que mencionou vários bilhões de reais que estavam na sua agenda econômica, principalmente em energia hidrelétrica.
(b)Nos Estados Unidos que vinha sendo o maior emissor (passado pela China recentemente), não existe apoio popular a idéia de controlar a emissão dos gases, já que apenas 30% da população acreditam que o aquecimento é devido a causas antrópicas. Isto enfraquece o presidente Obama e fortalece os republicanos no Congresso para impedir medidas legais de controle. Como consequência os representantes americanos não tinham mandato para negociar;
(c)Os países em desenvolvimento como a China que agora se torna um grande emissor não pretende controle interno sobre suas emissões, já que isto representa interferência e pode também ser visto como um meio de espionagem técnica e industrial;
(d)Os países pobres vêm este tema como mais um fundo de apoio que suporte sua economia e procuram pressionar para buscar mais ajuda além da tradicional da cooperação internacional. Neste processo, o foco é perdido na busca de dinheiro e não de soluções efetivas, que passam pelos recursos, mas requer mudanças de procedimentos;
(e)A crise financeira mundial que iniciou em setembro de 2008 fez com que os países tivessem que usar a maioria dos recursos para aumentar a quantidade de dinheiro no mercado para manter o financiamento e evitar o pior. Isto comprometeu e endividou principalmente os países desenvolvidos como Estados Unidos, Inglaterra, Espanha, Itália e atualmente existe um risco de insolvência de países como passou com a Islândia e países do Leste Europeu. Este cenário enfraquece a criação de medidas econômica de apoio a esta causa. Exemplo disto foi a timidez do valor utilizado para criar um fundo de apenas US$ 10 Bilhões, quando a crise econômica representou 5% do PIB Mundial !.

Tudo isto era esperado, portanto não existem surpresas, a questão continuará e a pressão e interesse público é que faz a diferença, pois os decisores estão atentos a opinião de seus eleitores. Em Bonn daqui seis meses e Cidade do México em um ano os decisores continuarão a receber pressões. Este é o processo que poderá levar a medidas mais objetivas no futuro, continuo otimista!!

(*) A questão da incerteza relativa ao efeito antrópico sobre o clima é assunto que vou explorar no futuro neste espaço, já que existe uma legião de profissionais que têm dúvida sobre o real efeito da emissão dois gases.

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MUDANÇAS CLIMÁTICAS: COPENHAGUE 2009

Esta semana em Copenhague iniciou a conferência do clima para discutir ações para redução de emissões que produzem as mudanças climáticas. Na primeira semana os profissionais (15 mil) tentam encontrar uma saída para o acordo dos países, no final semana chegam os Ministros e na semana seguinte os presidentes que buscarão assinar um acordo para o futuro.

Os cientistas nas últimas duas décadas identificaram que o aumento de CO2 e outros gases na atmosfera está aumentando o efeito estufa. O efeito estufa é o aquecimento do globo terrestre pela retenção das ondas de calor (comprimento longo) emitida pela absorção de radiação solar na superfície. Este aumento se dá pelo acréscimo destes gases na atmosfera. Na era pré industrial a concentração era de 280 ppm de CO2 na atmosfera e atualmente está em 430 ppm, mostrando um aumento significativo. Os dados mostram que a temperatura aumenta junto com o aumento de CO2.

Vários indicadores de aumento de temperatura e de seu efeito têm sido descrito com freqüência no noticiário e em publicações. Estes são indícios de que este processo está ocorrendo. Para estudar os cenários futuros foram desenvolvidos modelos (Existem diferentes formulações de modelos) que representam o globo terrestre. Estes modelos apresentam grande variação entre si e estimam variação de temperatura de 1 a 6º C, com diferentes conseqüências e também de diferentes cenários previstos para futuro considerando as emissões de CO2 pelo desenvolvimento econômico na Terra.

Os questionamentos sobre esta teoria são de que a Terra na realidade está passando por um período mais quente, como já passou no passado, quando também o CO2 aumentou com a temperatura e nada tem a haver com a emissão antrópica existente no Planeta. Nos Estados Unidos somente 30% da população acredita que esteja ocorrendo este efeito.

Os Estados Unidos não assinou o tratado de Kyoto e continua relutante em se comprometer em reduzir as emissões devido ao custo econômico que a mesma terá. A Europa se mostra mais sensível a este processo com um compromisso maior. A China e a Índia não querem se comprometer.

A emissão atual tenderá a aumentar em 20% em 2020. O acordo que se busca procura buscar reduzir em 10%. A redução de emissão de CO2 envolve vários aspectos do desenvolvimento econômico, como a energia, onde grande parte dela emite CO2 como a gasolina e o diesel, a produção de energia elétrica de carvão, a produção pecuária, pois o desmatamento com queima e o próprio gado emite CO2. Portanto não é uma tarefa simples e contraria muitos interesses.

Como tomar decisão sobre um conhecimento incompleto? A ciência mostra ainda incertezas importantes, portanto é razoável desprezar o risco? Parece que não, até porque os riscos são importantes e desnecessários. As ações de mitigação podem gerar aprimoramentos e conhecimento técnico científico nos seus desafios e melhoria ambiental.

A notícia que chega da Conferência, até este momento é de criação de um fundo de investimento para mitigar as emissões, mas também existe muita relutância dos países em se comprometerem com as metas de redução. Provavelmente Copenhague é uma primeira etapa de muitas na busca de uma convergência que provavelmente ocorrerá, sou otimista!!

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CONCEITOS DOS MODELOS HIDROLÓGICOS

Nesta semana iniciamos uma série de textos sobre os modelos hidrológicos com os conceitos principais destas ferramentas utilizadas em Recursos Hídricos. Esta é uma sequência de seis matérias que serão postadas no blog ao longo do tempo (provavelmente intercalada por outros assuntos), iniciando com esta e no futuro com os seguintes títulos: desenvolvimento histórico, estrutura, incertezas, usos e desafios.

A representação dos processos hidrológicos através de modelos é a forma encontrada pelo hidrólogo para estudar os diferentes componentes do ciclo hidrológico e as interações antrópicas. Existem várias formas desenvolvidas para modelar a realidade como o protótipo amostral de um espaço físico real, a visão teórica qualitativa dos processos e a formulação matemática de como se processam os diferentes fenômenos. O modelo existe apenas na nossa imaginação (segundo Stephen Hawkins), é uma representação idealizada de como observamos e entendemos a natureza.

Existem modelos de comportamento que descrevem os processos; modelos de otimização que otimizam um ou mais sistemas projetados e podem utilizar os modelos de comportamento; os modelos de planejamento englobam os anteriores e outros, na busca de tomada de decisão para o desenvolvimento ou conservação hídrica.

No desenvolvimento e análise dos modelos existem processos entendidos e representados de forma determinística, ou seja explicado de forma empírica ou conceitual sem o uso de tratamento estatístico e modelos estocásticos que tratam os processos de forma estatística no tempo, ou ainda a combinação dos anteriores. Neste último os processos conhecidos são tratados com equações determinísticas e os resíduos são explicados por tratamento probabilístico.

O uso de técnicas estatísticas e determinística está sempre presente no estudo das formulações dos modelos hidrológicos, devido principalmente ao conjunto de incertezas envolvidas nos dados, heterogeneidade espacial e temporal dos processos e da combinação caótica de vários sistemas não-lineares.

As principais variáveis hidrológicas são estocásticas devido à dificuldade de representação e entendimento do determinismo que produzem a sua variação temporal, que depende essencialmente dos condicionantes climáticos. Os modelos estocásticos têm sido muito utilizados em hidrologia para representar inferir sobre as variáveis dos processos ou complementar os modelos determinísticos.

Os modelos determinísticos buscam a representação dos processos identificados pelo pesquisador através de equações com variáveis que representam valores no tempo e espaço dos fenômenos envolvidos e parâmetros que retratam condições específicas do sistema representado.

A existência de um modelo para simular um processo não garante que os resultados obtidos sejam adequados e as incertezas envolvidas geralmente se relacionam com: a capacidade do modelo em representar os processos; os erros de medidas e representação das variáveis de entradas e; a variabilidade dos parâmetros para representar o sistema.

A capacidade que um modelo possui para descrever os processos envolvidos depende das formulações utilizadas e suas limitações. Por exemplo, um modelo de escoamento de rios que não considera os efeitos de jusante sobre o escoamento de montante pode ser utilizado quando estes efeitos são desprezíveis, caso contrário as estimativas obtidas apresentarão grandes incertezas e o modelo não terá utilidade. A dificuldade que geralmente aparece está em diferenciar a fonte dos erros, quando pelo menos uma das três incertezas destacadas acima ocorrem, ou seja, modelo inadequado, dados deficientes e parâmetros pobremente estimados. Este cenário é mais crítico em problemas onde dificilmente existem dados para provar os resultados dos modelos, como na simulação hidrodinâmica de ondas de rompimento de barragem.

A engenharia tem utilizado com parcimônia muitos dos modelos para gerenciamento dos recursos hídricos, mas muitas vezes sem um exame adequado das suas limitações, o que tem produzido incertezas nas decisões e nos projetos de recursos hídricos.

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